25 de Abril, sempre!

Michael Seufert

A definição escorreita dos termos usados na discussão científica ocupa uma parte não desprezável dos grandes manuais de todo o tipo de áreas do saber. Na verdade, muita discussão é inútil à partida quando, por falta de definição rigorosa, as partes não se entendem sequer sobre o que é que estão a discutir, usando os mesmos termos entre si significando coisas diferentes para cada um. Esclarecido o significado exacto dos termos usados, muita discussão deixa de o ser, esclarecendo-se afinal em mal-entendido uma divergência que não o era.

Curiosamente isso acontece também quando falamos de ocorrências na história. Falar no “25 de Abril” é falar de coisas muito diferentes consoante o interlocutor. O engraçado aqui é que muitas vezes estamos bem cientes dessa multitude de leituras sobre o golpe (sacrilégio: Revolução!) e antecipamos, antes sequer de começar a falar, a necessidade de deixar bem claro do que é que nos queremos demarcar quando falamos do 25 de Abril. É que no 25 de Abril cabe tudo e mais um par de botas e cada agente ou cronista ou simples interessado vai destacar aquilo que mais lhe convém – consciente ou inconscientemente.

Assim, se para uns “Abril” é a esperança numa sociedade sem classes, para outros é a ocupação e destruição do sustento da família. Onde uns destacam a libertação das colónias, outros recordam o exílio da terra onde nasceram. Se chegou enfim o fim da Censura e da PIDE, vieram também os saneamentos políticos na imprensa, universidade e administração pública, as prisões sem mandado. E com as eleições livres e a nova Constituição veio também a dívida, o futuro empenhado em nome dos votos do presente e o caminho para o Socialismo.

Se calhar o que acontece aqui é o mesmo que acontece noutros campos de debate: a esquerda ocupou os termos politicamente correctos e apetecíveis (liberdade, igualdade, justiça social, etc.) deixando para a não-esquerda eternas justificações semânticas para não entrar em contradição. Não sei e, francamente, não quero saber. Sei é que não quero ficar de fora de me congratular com a queda dum regime anti-liberal, balofo e autoritário como o de Salazar, Caetano e o partido único do Portugal do respeitinho nacionalista.

O 25 de Abril trouxe-nos “A” liberdade? Certamente que não. E se muitos tivessem levado a sua avante estaríamos no final do PREC piores que a 24 de Abril. E talvez o 25 de Abril tenha de ser lido e celebrado no seu mínimo denominador comum. O 25 de Abril pode ser o PREC, pode ser a Constituição socialista, pode ser o regime da Terceira República, pode ser a descolonização, pode ser o endividamento público, pode ser muita coisa. Mas no início foi o dia em que o país saiu à rua porque uns militares foram mandar o antigo regime às urtigas. E esse momento fundador é digno de celebrar e de assinalar.

Outra conversa é sobre os caminhos que podemos, 40 anos depois, atalhar para caminhar para um país que não seja apenas muito forte a proclamar as liberdades no papel e na Constituição e as deixe para trás na protecção que dá aos indivíduos face à acção de governantes e burocratas. Discutir a liberdade que nos falta alcançar não é “cumprir Abril” como era entendido pela 5ª Divisão do MFA. Mas écertamente honrar quem não cabia no Portugal do Estado Novo porque nenhum de nós caberia.

2 pensamentos em “25 de Abril, sempre!”

  • oliv martins escreve:

    Boa desculpa para ter “marchado” ao lado dos abrilescos (maxistas)…! Tenho dúvidas de que o MS tenha vivido no antes 24, a imagem de perfil assim o comprova ou então tem o conplexo da idade…e mais parece um pseudo liberty.
    Quando se escreve deve basear-se na experência própria e não na da “carneirada”.
    Misturar liberdade com o antes ou o depois torna-se um paradigma e que para o qual o autor decerto não tem capacidade para o destrinçar, conforme textualiza.
    Pessoalmente (1956) posso afirmar de que tive mais liberdade no antes do que no depois, por irunia que possa parecer. Não me envolvia em politiquices e a minha prioridade era simplesmente trabalhar e assim tentar ter uma vida melhor e com o meu esforço contribuir para o desenvolvimento de Portugal.

  • Referências externas a este artigo: Do 25 de Abril à Liberdade – Oficina da Liberdade

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