Apresentação do ’31’ por Zé Diogo Quintela

Zé Diogo Quintela

O texto aqui reproduzido foi o usado para a apresentação do livro ‘Juntos Somos Quase Um 31 – Liberais à Soltarealizada em Lisboa, no Círculo Eça de Queiroz, no dia 31 de Maio de 2019.

Boa tarde a todos. Antes de começar, queria avisar que vou ler. Faço reclames a uma marca de óculos, tenho de lhes dar uso. Começo por agradecer à Zita Seabra, da Alêtheia Editores, ao Telmo Fernandes e ao José Bento da Silva, da Oficina da Liberdade, e ao Carlos Guimarães Pinto, que intermediou, o convite que me foi feito para apresentar este livro. É importante nomear os responsáveis, para o caso de, no fim da minha intervenção, alguém querer pedir satisfações. Quando me convidaram para apresentar o livro, pensei que fosse patranha. Um livro sobre liberalismo chamado “Somos quase um 31”? Quase um 31? Soa a uma daquelas contas de merceeiro do Ministro Centeno, feitas a olho. Com esta aritmética achei que só podia ser um livro de socialistas a fazerem-se passar por liberais. Mas depois vi a chancela: Oficina da Liberdade. Se fosse socialista, era Comité da Liberdade, ou Comissão da Liberdade, um desses fóruns onde não se faz nada, só se debate. Numa oficina, trabalha-se.

Depois de o folhear, percebi que é mesmo sobre liberalismo e é um livro que me vai ajudar a dar substrato teórico às minhas inclinações naturais liberais. É que, normalmente, tenho alguma dificuldade em definir o que é considerar-me “liberal”. Aliás, diria que não sou o único. Liberais mais esclarecidos do que eu sentem o mesmo transtorno. Como se vê por esta obra, com os seus vários pontos de vista, aquilo que, em Ciência Política, se chama de “salganhada”. Um liberal tem muito mais dificuldade em definir-se do que um socialista. Até porque, ao mínimo obstáculo com a definição, o socialista corre a pedir ajuda ao Estado. 

À primeira vista, não parece lógico ter um palhaço a apresentar um livro sobre liberalismo. A profundidade dos argumentos que vou usar pode indicar que, quando muito, poderia apresentar os Apontamentos Europa-América do livro. Uma segunda análise prova que, pelo contrário, faz todo o sentido. Há poucas profissões mais liberais do que a de comediante. Um comediante trabalha para gargalhadas e, por mais que se tente, não se conseguem subsidiar as gargalhadas. O que uma pessoa diz e escreve ou tem graça, ou não tem. Como o próprio nome indica, não se paga a graça. Não existe um Programa de Apoio ao Riso Via Ofertas. O PARVO. Acreditem, eu procurei. Agora que o disse, é possível que o Ministério da Cultura o crie.

Na minha família, os conceitos políticos chegam-nos pelas crianças. O meu pai diz que ficou a perceber o comunismo quando, numas férias, o meu irmão era o único dos primos que tinha um balde com peneira. Todas as crianças queriam aquele balde, de maneira que o meu irmão foi obrigado a partilhá-lo. O que o deixou desgostoso. Depois, com o excesso de uso e a falta de cuidado dos primos pelo que não era deles, escangalhou-se o balde, o que deixou o meu irmão ainda mais desgostoso. O meu pai resolveu então adquirir 7 baldes, um por criança, para não haver discussões, o que deixou o meu irmão desgostosíssimo por já não ter um balde especial e por ser o pai dele a distribuir baldes. As outras crianças, a partir do momento em que tiveram, cada uma, o seu balde, deixaram de lhe achar piada. E passaram a cobiçar tudo o resto que o meu irmão tinha, pois sabiam que o meu pai ia arranjar igual para todos. E foi assim que o meu pai descobriu que o comunismo não funcionava.

Já a mim, as crianças mostraram-me o liberalismo. Quando a minha filha nasceu, eu já tinha enteados. Sendo um homem eminentemente prático, em vez de ler livros sobre crianças, arranjei quem em emprestasse as suas, para ir treinando.  Os enteados estão para o futuro pai como a boneca insuflável está para o tarado: não chega a ser a mesma coisa, mas já dá para ficar com uma ideia geral.

E o que aprendi com eles, filhos e enteados, é que as crianças são todas diferentes. Logo, não há soluções iguais para todos. Com 8 meses, a actividade favorita da minha filha era o jogo de “apontar”. A minha mulher perguntava ‘onde tá a mãe?’ e a miúda apontava. ‘E o pai?’, e ela voltava a apontar. ‘Onde tá o mano’, novo apontar. A minha mulher estava convencida que era sinal de que a nossa filha era muito inteligente. Mas eu percebi que era sinal de que a nossa filha era uma queixinhas. A minha filha não hesitava em denunciar pessoas. Aliás, não eram só pessoas, também denunciava partes do corpo: nariz, orelhas, boca. Tudo. Se isto acontecia quando o prémio eram as palmas da mãe, imagine-se como seria se houvesse uma recompensa em dinheiro. Percebi então que a minha filha não é liberal, vai ser fiscal das finanças. Já o meu filho, com 8 meses, não tem nada a ver com o que a minha filha era, com a mesma idade. Este bebé não aponta nada. Tem, basicamente, duas áreas de interesse: bater com objectos ou pôr objectos na boca. À sua maneira, também não é liberal, uma vez que os objectos que prefere para estas actividades não são os dele.

Portanto, ver a paleta de diferenças que há, desde que são crianças, faz-me desconfiar de teorias que tratam tudo como se fosse igual. Aprender política com crianças pode parecer idiota, mas é uma coisa que acontece mais vezes do que julgamos. Neste momento, a nossa política energética está a ser decidida por adolescentes, liderados por uma jovem sueca que, segundo a mãe, vê CO2 a olho nu. Faz todo o sentido ouvir as crianças sobre este tema. Não há maior autoridade em temperaturas do que elas, como sabe qualquer pai que já recomendou um agasalho e ouviu ‘mas está calor!’ Sei que não é muito liberal dizer isto, mas para que é que convidaram a Greta Thunberg para vir a Portugal? Para quê ir ao estrangeiro buscar uma criança semi-mística, que vê o que mais ninguém consegue ver e traz uma mensagem de salvação para o mundo, se temos cá os Pastorinhos?

Portanto, é a observar o comportamento das crianças que eu formo as minhas convicções políticas. Liberais mais sofisticados foram influenciados pela Escola Austríaca, eu fui pelo Externato Rainha D. Amélia, onde estudam os meus filhos.

Apesar da minha ignorância em economia (ou, se calhar, por causa da minha ignorância em economia), a parte do livro que mais me agarrou foi, justamente, a que versa sobre Liberalismo e Economia. Trata-se de um manual de instruções para um empresário que queira abrir uma empresa, se a empresa for no estrangeiro. Para quem, como eu, opera em Portugal, é literatura de cordel financeira, na medida em que faz chorar. Melhor: é o “50 sombras de Grey”, se o Grey for o Estado e a namorada uma pequena e média empresa com apetência para ser açoitada. Ser empresário e ver aqui a forma como o esbulho é feito, fez-me sentir como uma galinha que foi alfabetizada para depois poder ler um livro só com receitas de cabidela.

Infelizmente, na nossa classe política abunda a falta de noção de como funciona um negócio na vida real. No ano passado, vimos isso com o caso de Ricardo Robles, o vereador do Bloco de Esquerda que quis vender um prédio por 5,7 milhões. O problema não foi a hipocrisia de defender uma coisa e fazer o seu contrário. Isso faz parte da política. A questão foi mostrar como pessoas que têm o poder de regular a economia não fazem a menor ideia de como a economia funciona. Ele não pediu 5,7 milhões por ganância, pediu-os por achar que, para um investidor em Alojamento Local, seria um bom negócio. Esqueceu-se que, além o preço, o investidor precisa de contar com IMT, Imposto de Selo, IMI, decoração dos apartamentos, despesas com pessoal, água, luz, gás, internet, manutenção, seguros e IRC. Um investimento que, para quem nunca geriu um negócio, parecia ter um retorno robusto, afinal tem uma margem milimétrica.

E é esta a questão: mais do que moralistas, os socialistas não sabem fazer contas. O dedinho em riste com que apontam a toda a gente, é o dedinho que ficou em baixo na hora de tirar dúvidas nas aulas de matemática.

O que me traz àquela que é, possivelmente, a única pecha deste livro: a falta de referências aos teóricos portugueses que influenciam a nova geração de liberais. Sim, há Adam Smith e Hayek, mas onde é que estão António Costa e Pedro Nuno Santos? Em Portugal, o liberalismo não é inspirado por filósofos que meditam, mas sim por políticos socialistas que taxam. A diferença entre um liberal estrangeiro e um português está no tipo de leituras que o modelam: o primeiro lê as Cartas de David Hume ou de Edmund Burke, o segundo também lê correspondência, mas da Autoridade Tributária.

Por isso, o corolário é inescapável, e é com tristeza que me vejo obrigado a referi-lo. Mas cá vai. Meus amigos, é impossível negar: em Portugal, até o Liberalismo é subsidiado pelo Estado. Desculpem-me dizê-lo à bruta, mas ninguém aqui é verdadeiramente independente. (Se for preciso, faço uma pausa para quem estiver enjoado ir à casa de banho). É verdade: como em tudo em Portugal, o Estado promove o Liberalismo com o dinheiro dos contribuintes. Ao aplicar os nossos impostos perdulária e displicentemente, transforma cada vez mais portugueses em liberais. É desagradável ter de me despedir com esta má nota, mas é mesmo assim. Obrigado.

Foto: Bernardo Blanco
Foto: Bernardo Blanco