As eleições em Espanha

Ricardo Dias de Sousa – Madrid

“O Povo espanhol escolheu Pedro Sanchéz!” Foi com estas palavras, que Albert Rivera reconheceu a sua queda. Esta afirmação do grande perdedor da noite é um sintoma comum da ilusão que afecta grande parte do eleitorado e que os políticos, mesmo na hora da derrota, teimam em perpetuar. O povo espanhol não escolheu, porque o povo espanhol não escolhe. Quem escolhe são os indivíduos, cada um escolheu o que lhe pareceu melhor, e o partido mais escolhido, ainda que não maioritariamente, foi o PSOE.

O eleitor só pode escolher o partido que quer ver no governo. Não podem manifestar uma segunda solução de governo. Agora os líderes de cada partido tratarão de interpretar essa escolha de maneira mais ou menos abusiva, mas sempre como lhes convenha. Dois exemplos: os eleitores do PSOE votaram para que o PSOE governasse sozinho, pelo menos esse foi o pedido que o partido lhes fez. Suponho que é legitimo afirmar que a sua segunda preferência será que o PSOE governe em coligação, mas uns preferem que essa coligação seja à esquerda e outros à direita, e para poucos o sentido será indiferente.

Obviamente que o PSOE vai tentar governar com quem o deixar afirmando que o faz por vontade expressa não só do seu eleitorado, como do próprio povo espanhol. Similarmente, o PP recebeu os votos dos espanhóis que o queriam ver no governo, mas estes não deixaram no boletim de voto nenhuma indicação sobre se preferem que o PP vote contra um governo PSOE ou se abstenha para permitir que este forme um governo minoritário.

O grande derrotado da noite é Albert Rivera e o partido Ciudadanos. Foi tão sumamente derrotado que todos os outros partidos puderam, em maior ou menor medida, cantar vitória. Muitos dirão agora que o problema do partido de Rivera foi querer representar um espaço que nunca existiu. Discordo. Esse espaço existiu, mas Rivera não o soube aproveitar. Transformou o C’s no partido de Albert Rivera e acabou com ele. Julgo que será interessante fazer uma análise independente a esse fenómeno, que ficará para outro dia. Aqui importa mais tentar perceber o que é que vai suceder ao país.

O PSOE ganhou as eleições e espera governar. Teve piada ver como, nas várias televisões, os analistas mudavam de semblante cada vez que as estimativas davam ao PSOE 124 votos ou 122, como se dois acima ou abaixo fizessem alguma diferença. Mais importante é o facto de que, com a derrota completa de C’s, o PSOE perdeu o único parceiro natural que tinha para esse governo, aquele que criaria menos anticorpos na estrutura regional do partido. Esses votos voltaram praticamente todos ao PP, de onde, em abono da verdade, tinham saído em primeiro lugar. À esquerda Sanchéz também não conseguiu fazer a mossa que esperava e o sonho de governar praticamente sozinho gorou-se.

Com estes resultados existem basicamente 4 cenários: a) novas eleições, b) governo de grande coligação entre PSOE e PP, c) governo progressista do PSOE com a esquerda e os independentistas e d) governo minoritário do PSOE com a abstenção essencialmente do PP. Quer isto dizer que a chave está na mão dos Populares.

Obviamente existe o risco de novas eleições. Só que, desta vez, o PSOE não está interessado nisso. Jogou essa carta nestas eleições e perdeu. Até teve sorte. Perdeu mais de 700,000 votos e apenas 3 deputados, é duvidoso que volte a tentar a graça. Pode ser que esses 700,000 ficaram em casa, ao ver que não há governo, da próxima vez decidam votar a outro.

Além disso, para quem não conhece Pedro Sanchéz, digamos que é um marxista convicto, mas da escola de Groucho Marx – estes são os meus princípios, se vocês não gostam tenho outros. Vai pactuar com quem seja. Se não o fez antes foi porque estava convencido que ia ter uma maioria virtual. Entre o arrefecimento da economia, a remoção do Franco do Vale dos Caídos e umas negociações de governo em que transparecia o interesse que tinha em forçar eleições deixou passar esse comboio.

No discurso pós-eleitoral falou num governo progressista e em ser generoso com quem o assista. Da segunda afirmação não tenho a menor dúvida, porque já tentou o contrário e falhou. A primeira é mais complicada porque a Geringonça à espanhola necessita os votos dos indepes da Catalunha e País Basco. Isso significa o suicídio eleitoral para muitos barões no resto do reino. Estes não gostam do Sanchéz e o sentimento é recíproco. Mas Sanchéz não esqueceu como o escorraçaram do partido e, à volta, purgou a direcção, pelo menos influência da Andaluzia que é o principal bastião regional. Mas este é um argumento que o secretário-geral tem que ter em conta se não quiser acabar apunhalado pelos seus.

Além disso, Sanchéz fia-se mais de uma víbora que lhe esteja a morder a mão que das juras de fidelidade dos partidos à esquerda, tanto dos nacionais como dos nacionalistas, e provavelmente com razão. O ódio de Pablo Iglésias ao PSOE respira-se (“o partido com as mãos manchadas de cal viva”, como lhe chamou) e os independentistas só esperam do PSOE poder continuar com o procés. À direita está o PP, que poderia viabilizar o governo de Sanchéz com um pacto de não agressão durante, digamos, meia legislatura, do qual Sanchéz se poderia fiar mais. E julgo que essa vai ser a prioridade de negociação dos socialistas enquanto afirmam exactamente o contrário.

O problema do PSOE é que eu duvido que o PP lhes dê essa oportunidade. E não é apenas porque os 52 deputados de VOX à direita poderiam ser 100 nas próximas eleições. Isso por si só deverá inviabilizar a grande coligação PP-PSOE. É também porque, desaparecendo Ciudadanos, existe um filão de eleitores ao centro que o PP pode captar se o PSOE se radicaliza.

Sendo maquiavélico, sempre afirmei que a melhor coisa que poderia suceder ao PP era a independência da Catalunha. Isto, claro está, sempre que não se note que a culpa é deles. A segunda melhor é que o PSOE vá atrasando a tomada de posse, se afogue em negociações com os partidos catalães, e se radicalize enquanto a situação económica se deteriora. O PP poderia então ocupar esse centrão social-democrata e europeísta, com VOX à direita e Podemos à esquerda.

Aos mais atentos não terá passado despercebida essa nova ordem política a três que se consolida no Mediterrâneo, da Grécia à França, passando por Itália. Nessa nova ordem desapareceram quase pode completo os partidos socialistas. A política não é uma ciência exacta e o PSOE esteve muito mais débil entre 2012 e 2016 do que está agora. Não sei se os dirigentes do PP são suficientemente maquiavélicos para jogar essa cartada, mas de momento não perdem nada por esperar.

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