Comentário de José Meireles Graça à Tertúlia #6

José Meireles Graça

Tertúlia #6

O Luiz Rocha, o Gastão Taveira, outros ainda, relataram o que se passou na tertúlia da última sexta-feira na Casa do Vinho Verde, os dois primeiros em textos aqui na Oficina. De resto, quem tiver curiosidade pode ouvir a gravação.
Não vou abundar no que os dois escreveram porque ambos foram fiéis intérpretes. Limito-me a consignar umas notas pessoais:
1. A sala estava muito bem composta, como habitualmente, mas notei a falta de algumas caras. Não vou elencar nomes, que não sou desses, mas a representação da capital, mesmo que a Margarida Bentes Penedo valha, como vale, por meia dúzia de lisboetas de prestígio, poderia ser mais gordinha. Isto deve-se, creio, a razões de índole geográfica: a distância entre Lisboa e o Porto é o dobro da mesma distância entre o Porto e Lisboa, o que explica a dificuldade de os alfacinhas se deslocarem ao Norte.
2. O muitíssimo bem elaborado discurso do Carlos Guimarães Pinto, em favor da regionalização, não encontrou grande adesão, e os dois conferencistas arrumaram-no sem grandes considerandos nem detalhe, limitando-se a chamar a atenção para a origem pública dos fundos que suportaram o sucesso dos casos de sucesso citados, salvo erro as duas regiões autónomas. Suponho que nem Daniel Bessa nem Camilo Lourenço conhecem a peça, senão abstinham-se de o despachar à la va vite. O segundo, aliás, não tinha nada a perder em pôr uma surdina na suficiência, mesmo que geralmente elabore dentro da razão. Como não sou adepto da regionalização mas odeio o centralismo lisboeta, que é um cancro que corrói o país; e como a tese de Guimarães Pinto, que em quase nenhum ponto subscrevo, merece muito mais do que ser enterrada sumariamente, fiz sinal ao moderador, que aliás dirigiu os trabalhos com discrição e competência, para me fazer ouvir, uma actividade que em geral encaro com egotista satisfação. Mas entretanto outros cascaram naquele meu colega espectador, e não quis acrescentar nada antes de o visado se defender. Coisa que ele não se deu ao trabalho de fazer, talvez porque no dia seguinte ia tomar posse do lugar que ganhou de presidente da Iniciativa Liberal, e ter portanto outros gatos para açoitar.
3. Mulheres havia muitas, incluindo uma deputada, que aliás primou pela discrição. E – caso singular – as que conheço não cabem nas aguerridas hostes do feminismo militante que por estes dias varre o país a golpes de demagogia e activismo. É um conforto: o liberalismo não é um assunto de gajos, é matéria que interessa equanimemente a homens e mulheres.
4. Antes da tertúlia houve jantar, e depois paleio no jardim. Constatei mais uma vez o que de mais surpreendente têm estes encontros: gente que tem ideias com frequência divergentes, dentro de um quadro geral de repúdio da excessiva importância do Estado nas nossas vidas e revolta contra o esbulho fiscal a que a nossa sociedade, como outras, está exposta, mas sempre guardando respeito mútuo, contenção, e não raramente simpatia.
Isto para dizer que estes encontros valem a pena: conhecem-se pessoas que quase nunca conferem exactamente com as fotografias dos perfis das redes sociais, quando as têm; aprende-se sempre alguma coisa, e não apenas porque os conferencistas costumam ter qualidade; e conclui-se – eu concluo – que a direita democrática, com todas as suas capelas, não tem a mania da superioridade moral nem integra nas suas fileiras quem tenha como propósito político inventar mais maneiras de dependurar no Estado novas resmas de dependentes.

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