Imagine (um John Lennon liberal)

Faz hoje 39 anos morria John Lennon. Na entrada do Edifício Dakota, onde Lennon vivia, Mark David Chapman disparou-lhe 5 tiros pelas costas. Quatro destes, qualquer um deles fatal, atingiram o alvo e acabaram com a vida do ex-Beatle. Transportado num carro-patrulha, apesar das tentativas de reanimação foi declarado DOA (dead on arrival) no Hospital Roosevelt – Hoje Mount Sinai West – 13 quarteirões ao sul em questão de poucos minutos.

Do quarteto de Liverpool, Lennon é aquele cuja imagem mais se associa com a contra-cultura dos anos 60 e, a partir daí, com os movimentos ecologistas, feministas e socialistas da actualidade. Esses que prometem um mundo melhor para todos a troco de lhes entregarmos o poder. Existe bastante prestígio em considerar a John Winston Lennon como um deles, nem que seja pelo imenso talento musical que se lhe atribui. Certamente a importância real das velhas estrelas das gerações Beatnik e Hippie (músicos, escritores, cineastas, filósofos, etc.) é bastante menor do que eles próprios querem admitir. Em parte, isso deve-se a que as novas gerações de “activistas”, como as velhas aliás, julgam estar a construir um mundo inteiramente novo sem antecedentes, apesar de as receitas que propõem serem as mesmas que nunca funcionaram em nenhuma parte.

Ainda assim, os novos “activistas” têm um lugar reservado no panteão para as velhas estrelas do Rock’n’Roll – sempre que estas se comportem adequadamente – e o John Lennon, ao estar morto, apresenta óbvias vantagens neste capítulo. Até porque Yoko Ono, uma filha de banqueiros japoneses, educada nos melhores colégios e comme il faut membro depleno direito da esquerda-caviar, foi extremamente presciente e soube preservar e rentabilizar a imagem de John Lennon, aproveitando como poucos os benefícios da sociedade capitalista que aparentemente despreza, nomeadamente a protecção à propriedade física ou intelectual.

Mas não deixa de ser verdade que os Beatles, muito pela mão de Lennon, foram tomando posições políticas que os politicamente-correctos modernos consideram desejáveis: não permitiram a segregação racial nos seus concertos no Sul dos EUA, falaram contra a Guerra do Vietname (contra o desejo expresso de Brian Epstein que não queria que se envolvessem em política) e defenderam a ideia de um mundo em paz transformado pelo amor. Além disso, o John Lennon, depois de se apaixonar pela Yoko Ono, converteu-se num furioso feminista, denunciando todas as manifestações que considerava de machismo, incluídas as suas próprias da juventude. Apesar de a esquerda radical-chic gostar de propagar uma exclusividade sobre estas ideias que não tem (por exemplo, a ideia de um mundo em paz transformado pelo amor é tão velha como São Paulo) estas são essencialmente ideias da esfera do Liberalismo que o estatismo utiliza para proveito próprio, com cujos fins, uma igualdade à priori entre os indivíduos, nenhum liberal está em desacordo.

É certo que o próprio Lennon se declarou em ocasiões como socialista e frequentou, entre finais dos anos sessenta e princípios dos setenta, círculos de esquerda radical revolucionária. Ainda assim, a ideia de um John Lennon activamente socialista não passa de hagiografia barata. Toda a letra da música Revolution é um alegado a favor de uma revolução sim, mas também contra a violência comunista, que o próprio em 1978 até considerava algo profundamente machista. É impossível saber o que ele pensaria hoje da contra-cultura institucionalizada, e não é improvável que, como muitos dos seus companheiros da juventude, se tivesse “solidarizado” com as novas-velhas causas para não perder estatuto e royalties. Mas também não é improvável que o John Lennon que ainda vivia no dia 8 de Dezembro de 1980, e com o entendimento que tinha então, se tivesse colocado em oposição a todo este circo de futilidades e assalto à coisa pública, quer dizer, ao dinheiro retirado pelo Taxman à classe operária a que ele nunca negou pertencer.

Na última grande entrevista antes de morrer, a que saiu na revista Playboy em Janeiro de 1981, podemos ouvir o Lennon desfazer alguns desses equívocos e apresentar uma visão política que se coaduna perfeitamente com o Liberalismo. Uma entrevista não é necessariamente uma fonte fidedigna de informação sobre o que uma pessoa verdadeiramente pensa, especialmente hoje em dia, com a proliferação dos PR, dos marketeers e do politicamente correcto, é impensável utilizar a promoção de um disco como fonte segura de pensamento. Mas 1980 em muitas coisas, no que diz respeito à comunicação com os media em particular, era um mundo aparte do que conhecemos hoje. E Lennon, que certamente não sabia que estava a deixar um testamento para as gerações futuras, disse muito livremente o que pensava do mundo em geral e de algumas pessoas em particular.

Quando lhe preguntaram sobre o seu socialismo a resposta não podia ser mais clara. Enquanto que Ono justificava com platitudes o facto de eles terem tantas propriedades – “não olhar para os números mas para a excelência das coisas” e que o dinheiro que possuíam era acorde “com o nível de segurança que necessitavam” – tão ao gosto dos moralistas modernos, Lennon simplesmente respondeu: “sim, somos ricos e o quê?” – para depois acrescentar – “em Inglaterra ou és a favor do movimento trabalhista ou do movimento capitalista. Se és da minha classe, ou te convertes num Archie Bunker de direitas, ou te convertes num socialista intuitivo, que é o que sou. Isso significa que as pessoas têm direito aos seus dentes falsos e a que cuidem da sua saúde, e o resto dessas coisas. Mas a partir daí, eu trabalhei por dinheiro e quis ser rico. Assim que se lixe – se isso é um paradoxo então eu sou socialista. Mas eu não sou nada. O que eu tinha era sentimento de culpa por ter dinheiro. E foi por isso que eu o perdi, dando-o por aí ou permitindo que alguns assim-chamados gestores me roubassem o resto.” Este era todo o socialismo do John Lennon.

Quanto a questões como ajudar o próximo, não deixa de ser curioso que John Lennon acreditava no dízimo e practicava-o activamente. Todos os anos entregava 10% dos seus rendimentos à caridade. Que caridade? A que ele e a Yoko julgassem importante. John estava escaldado com os vários concertos de beneficência, como o famoso para o Bangladesh organizado por Harrisson, e considerava esses eventos verdadeiros embustes que enriqueciam uns quantos à custa da miséria alheia. É pouco provável que acreditasse na boa vontade dos políticos para gerir essa função, afinal de contas ele também disse: “Produz o teu próprio sonho. Se queres salvar o Perú, vai salvar o Perú. Existe a possibilidade de se fazer tudo, mas só não se puseres [os meios] nos líderes ou nos parquímetros.” Mesmo que Lennon considerasse importante salvar o planeta, e acredito que o consideraria se ainda vivesse, punha pouca fé em que os líderes do movimente quisessem ou pudessem fazer alguma coisa ao respeito.

John Lennon estava mais próximo na sua maneira de pensar dos anarco-capitalistas do que do socialismo quando defendia os primados da acção do indivíduo, da não iniciação da violência e da caridade privada. Ao mesmo tempo, grande parte da sua radicalidade era dirigida aos abusos de poder da autoridade tanto em matérias fiscais como por parte das forças da ordem. Também acreditava que o indivíduo tinha direito ao fruto do seu trabalho e do seu investimento, e à prosperidade que daí advêm e embora admitisse que o estado poderia ter um papel social básico, era contrário ao papá-estado que resolve os problemas das pessoas, até por desconfiar dele: “Se os Beatles e os anos 60 tinham uma mensagem, era aprende a nadar.”


Ricardo Dias de Sousa

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