Liberdade é só uma

Vítor Cunha

Eles, na maioria dos casos acompanhados por elas, as que entre risinhos mais ou menos nervosos percebiam que não havia motivos para se esconderem, iam saindo do Capitólio, em Lisboa, para uma cidade em descoberta de que um ajuntamento de pessoas não implica uma conspiração. A estreia em Portugal, em 1976, do filme “Garganta Funda”, o fenómeno mundial do porno-chic, assinalava, para uma geração deslumbrada, o fim da vigília paternal do Estado Novo sobre hábitos, gostos e vontades de cada um em assistirem ao cinema que quisessem. A pornografia chegou a Portugal, e, com ela, sentiu-se liberdade.

Muitas vezes centramo-nos na liberdade económica e esquecemos as outras componentes da una e indivisível liberdade. Liberdade não é a consagração de uniões homossexuais ou heterossexuais por um estado moralizador que se faz substituir ao velho padre: liberdade é tudo aquilo que fazemos por nós próprios sem prejudicar os outros. Assim, a componente de liberdade para frequentar estabelecimentos de filmes pornográficos é tão importante como a componente de estabelecermos relações comerciais mais convencionais, como a abertura de tabacarias. Durante anos, até à ocorrência da única mudança social orgânica, a que parte de dentro e de evoluções tecnológicas, cinemas com filmes pornográficos eram exemplo de como a liberdade individual acarreta liberdade económica.

Qualquer progressista anti-clerical perceberia que o “Garganta Funda” contribuiu muito mais para a liberdade sexual que campanhas anti-crucifixos. Contudo, parece que insistimos em compartimentar as diferentes liberdades, como se não fosse tudo a mesma coisa.

Um pensamento em “Liberdade é só uma”

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