O Caso Paradigmático da Família Socialista Portuguesa na Família Socialista Europeia

Ricardo Dias de Sousa
– Madrid –

Por esse mundo fora, os socialistas orgulhosos de o ser há muito que deixaram discretamente cair a palavra “socialista” dos títulos com que pomposamente batizam os seus partidos. Nos países da Cortina de Ferro os motivos são óbvios. De Estetino no Báltico, a Trieste no Adriático, os partidos socialistas não aglomeram mais que uns quantos saudosistas das senhas de racionamento e das prisões arbitrárias. Socialistas italianos e gregos, outrora orgulhosos dos seus partidos, literalmente votaram os respectivos partidos socialistas à extinção, à medida que se apercebiam que esses supostos baluartes ideológicos não passavam de agências de nepotismo e corrupção (rings a bell?).

Apesar de não terem conseguido escapar ao socialismo em si, gregos e italianos foram pelo menos capazes de implementar o salutar hábito de mudar as moscas. Em França o PS agoniza enquanto os seus eleitores se dividem entre o socialismo aparentemente tecnocrata de Macron e o socialismo disfarçadamente ecológico de Mélenchon. Na zona de influência do protestantismo, do qual pouco ou nada resta, a palavra Socialismo nunca vingou. Os anglo-saxónicos fugiram dela a sete-pés, enquanto que o resto dos godos normalmente preferem o eufemismo “social-democrata”, mesmo quando esse fosse o nome do partido que, na Rússia imperial, albergou um grupo de psicopatas sanguinários mais conhecidos como bolcheviques.

Que em Portugal o Partido Social Democrata seja considerado “de direita” é uma triste manifestação das preferências eleitorais do eleitor medio nacional. Se para Churchill em Inglaterra uma conversa de cinco minutos com o tal eleitor era o melhor argumento contra a Democracia, em Portugal ao estadista inglês bastaria um olhar furtivo para declarar-se absolutista.

Assim pois, temos aqui na Península Ibérica a duvidosa honra de ser os únicos países democráticos (ia dizer civilizados) do mundo onde os partidos socialistas não só ainda atendem pelo nome como, pasme-se, governam. Não que não tenham sofrido reveses eleitorais. Tanto em Portugal como em Espanha, os partidos socialistas chegaram ao poder com os piores resultados eleitorais da sua história, montados à cabeça de uma coligação de socialistas e socialismos surtidos, cujos líderes não perceberam o que Mário Soares e Felipe González tinham percebido há já quatro décadas – que o seu inimigo eram os outros socialistas.

É que a política ibérica é como o Highlander. Só pode existir um. O presidente do governo, seja ele quem for, é o dador da vida, como os faraós do Egipto, e toda a estrutura burocrática do partido e do estado se curva voluntariamente perante ele. E o que dizer do eleitorado, essa minoria que ainda se resigna em ir às urnas cumprir o seu “dever cívico”?

Obviamente que calamidades localizadas, como pontes que caem pelo peso de autocarros cheios de pessoas, ou incêndios que matam por incúria do aparelho do estado, por exemplo, não contam porque, como o SIDA ou ganhar o Totobola, só acontecem aos outros. Enquanto não houver uma calamidade generalizada, seja a caída pronunciada do preço da habitação, o alto desemprego, uma crise do petróleo, uma intervenção do FMI por deficit excessivo ou uma inflação galopante, o chefe do governo aguentará ileso e todo-poderoso.

Só num destes casos é que políticos, burocratas e empresários, outrora amigos do grande líder, discretamente se colocarão de perfil enquanto os votantes lhe retiram o tapete. Só um acontecimento deste tipo é que tem o condão de acordar o eleitorado do estupor em que permanentemente vive. De outro modo, este manifesta inequivocamente a sua preferência “pelo que já lá está”, seja ele quem for. Fazendo jus à velha máxima, de que é melhor o mal conhecido que o bem por conhecer. Foi isto que Costa e Sanchéz perceberam. Os seus parceiros de assalto ao poder acharam que não, ou que desta vez ia ser diferente, ou que a recompensa era suficiente, porque o apoio não foi grátis, em política nunca é.

No fundo é compreensível a atitude dos eleitores, tanto dos que vão votar como dos que não. Se nos duzentos anos em que tiveram essa possibilidade nunca conseguiram eleger um governo decente, porque é que na próxima eleição iriam acertar? Pensam, se calhar com razão, que concurso está amanhado. É que o concurso está amanhado, mas são os próprios eleitores quem o amanha, porque querem viver num socialismo qualquer. Exigem do estado aquilo que ele não pode dar: que todos possam viver felizes à custa dele. E como não podem todos todos viver felizes à custa dele, alguns vão vivendo felizes à custa de todos.

No entanto, e enquanto esta lição não for aprendida (e temo que não será aprendida nunca) convinha, pelo menos, ir distinguindo os maus socialistas dos piores. Por exemplo, é certo que Portugal e Espanha são ambos governadas por partidos socialistas, mas não é certo que esses partidos socialistas sejam iguais. O Partido Socialista português pode comparar-se em vileza, quanto muito, ao PSOE da Andaluzia, não coincidentemente a região mais pobre (e corrupta) de Espanha. É certo que a mulher de Pedro Sanchéz, Begoña Gómez, também viu recentemente melhorada a sua condição laboral ao ser contratada por uma fundação privada com projectos sociais para África, e que o próprio Pedro voa, ao supermercado se for preciso, no Falcon presidencial para se recordar constantemente de quão bom e especial é (ou julga ser). Pedro Sanchéz é claramente um homem feliz por se ter conhecido.

Mas a diferença é que, em geral, os familiares mais chegados aos socialistas espanhóis, pelo menos a nível nacional, normalmente ainda fazem carreira naquela iniciativa privada que está mais além do mero enriquecimento através do Diário da República. Aliás, não deixa de ser com ironia que observo que muitos dos filhos de socialistas anti-capitalistas espanhóis estudaram nos Estados Unidos e trabalham em empresas de Private Equity ou Hedge Funds com um credo tão manifestamente capitalista que faria o Karl Marx corar de vergonha. Algo que não sucedeu nem sequer quando este contou à mulher que tinha engravidado a criada.

Também é certo que a segunda medida de Sanchéz quando chegou ao governo, depois de ter mandado mudar o colchão na Moncloa (como confessou num livro escrito por uma jornalista que, como recompensa, foi nomeada secretária de estado), foi colocar os amigos que o ajudaram a medrar no PSOE em cargos de confiança em empresas públicas. Mas isso é o normal em política em qualquer lado. Qualquer socialista, de esquerda ou de direita, de cima ou de baixo, de trás ou da frente, vai apoiando e apoiando-se noutros socialistas para chegar a esses lugares.

O que é extraordinário é que, à mofa com que as notícias sobre os familiares do PS no governo português são divulgadas pelos jornais ditos de direita em Espanha, junta-se com sorna o El País, jornal independente da manhã (mas dependente do PSOE) que explica aos seus leitores como, “a endogamia política de um país pequeno, com uma classe dirigente escassa, chegou ao extremo em que se sentem, no mesmo conselho de ministros, um matrimónio, um pai e uma filha”.

Mesmo para um país socialista, governado por um plagiador vaidoso e inane, como é a Espanha actual, a política portuguesa tem requintes terceiro-mundistas que eles julgam estar bastante abaixo do que é possível num país civilizado. E eu confesso que também.

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