On sarcasm

Ricardo Dias de Sousa

É um facto estabelecido que os americanos não entendem o sarcasmo. Como vivemos tempos em que as generalizações são particularmente perigosas, porque não estão a salvo da petulância alheia, passo a explicar: há americanos que entendem o sarcasmo e, inclusivamente, alguns que o acham engraçado. O êxito do Rick Gervais nas terras do Tio Sam é prova disso mesmo. Ainda assim, para poder disfrutar de bom sarcasmo, os americanos precisam de o importar.

Isto a propósito do Trump ter dito que o que ele disse em relação ao desinfectante foi sarcasmo. As pessoas é que não perceberam. Eu acredito. É uma clara demonstração de que a generalidade dos americanos não percebe o sarcasmo, e isso inclui o Donald Trump. Até pode ter acontecido que ele tenha mesmo tentado ser sarcástico, mas se assim foi, aconselho-o a contratar o Rick Gervais para lhe escrever as piadas.

Sarcasmos aparte, a minha opinião sobre o que se passou, foi que o Trump se meteu a tentar explicar ciência a leigos, ciência que ele próprio não percebe, de uma maneira rocambolesca e rudimentar, numa situação digna de um qualquer Alô Presidente. Mas o que é que a oposição bem-pensante faz? Acusa o presidente de querer que os americanos injectem desinfectante no corpo, num exercício de má-fé que deixa em evidência que, detrás de toda a compostura e imagem de ponderação, eles não estão interessados em apurar factos, apenas procuram convencer o mesmo eleitorado ignorante e crédulo de que o presidente dos Estados Unidos é um irresponsável. Tenho más notícias para estes últimos, tendo que escolher entre mentirosos, os americanos vão votar naquele que se parece a mais a eles.

Na Europa não percebemos a popularidade dos fatos de treino de Fidel, Chávez ou Maduro, como não percebemos a linguagem simplória e grosseira do Trump e do Bolsonaro. Não entendemos como esses elementos os distinguem de uma classe política bastante, para não dizer totalmente desacreditada naquele continente. Aqui preferimos políticos bem vestidos, com uma pose impecável, mas com a cabeça cheia de coisa nenhuma que se pareça a uma ideia para o país. Mas, ao contrário dos norte-americanos, ao menos percebemos o sarcasmo, ou o que é pior, aprendemos como se produz. O sarcasmo é o escape da hipocrisia.

Que o eleitor medio americano percebe o sarcasmo não tenho a mínima dúvida (Trump beware!). As anedotas soviéticas que o Ronald Reagan colecionava e metia amiúde nos discursos políticos são a prova disso. Mas também são a demonstração de que é um tipo de humor que os americanos têm que importar e, quem se der ao trabalho de ouvir essas anedotas soviéticas, se tiver alguma ideia de como funcionava o país, vai chegar à conclusão de que no socialismo mais totalitário o humor sarcástico é das poucas coisas que floresce e prospera.

Deixe uma resposta