Os inimigos da liberdade saem à rua

Alexandre Mota

O liberalismo na tradição clássica entende a liberdade como algo umbilicalmente ligado a determinado tipo de direitos, os chamados direitos naturais. Esses direitos nascem connosco, pelo que ninguém nos pode retirá-los, nem nós podemos subtrai-los aos outros.

Começando pelo direito à vida, estendendo-nos pelo direito a ganhá-la e a usufruir dos proventos dos nossos percursos profissionais, não esquecendo o direito a construir o nosso projeto pessoal de felicidade, seja ele normal ou um desvio à norma, liberdade é, por isso, um valor metodologicamente individual e indivisível.

Liberdade implica também responsabilidade. Desde já, a responsabilidade de não atacar a liberdade dos outros (os seus direitos naturais) e, adicionalmente, a responsabilidade de arcar com as consequências das nossas escolhas pessoais. Uma sociedade com vibrantes projetos de liberdade pessoal tende a construir espontaneamente e voluntariamente esquemas de participação coletiva, instituições, empresas, famílias. Isto acontece porque o Homem é um ser ontologicamente social.

Este texto não visa discutir o papel de um governo ideal, se é que tal coisa existe, nem sequer discorrer sobre a necessidade de um governo. Bastará referir que um governo cuja atuação primordial passa, por um lado, por “tirar a Paulo para dar a Pedro” e, por outro lado, embrulhar a atuação como um direito à liberdade, entendida como o acesso a coisas “dadas” pelo governo, trata-se de um forte inimigo da liberdade. O pior de todos.

Diga-se em abono do 25 de Abril que o “antes” não representava (assumidamente) um projeto de sociedade com valores liberais. Contudo, dá-se o caso de já terem passado 44 anos e 3 bancarrotas, ou seja, o suficiente para percebermos que os avanços indiscutíveis na liberdade de expressão que o 25 de Novembro nos trouxe não são suficientes para dizermos que agora vivemos com mais liberdade. Muito pelo contrário, vivemos com cada vez com menos liberdade em muitos aspectos da nossa vida, e isso não é uma mera coincidência, mas sim, sobretudo, o corolário lógico do “Regime de Abril” e da sua sacrossanta Constituição.

Por essa razão e porque, como diz o povo, “diz-me com quem andas dir-te-ei quem és”, ninguém que preze e entenda a verdadeira liberdade sairá à rua ao lado dos seus inimigos.

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