Para onde vai a direita

José Meireles Graça

Anteontem foi dia de tertúlia, desta vez em Lisboa, no Grémio Literário, e para quem lá foi e não tem o hábito de gostar de tudo, como eu, o copo esteve largamente cheio. Mas não até acima, houve o que dantes nos tascos, quando a caneca de quartilho tinha um espaçozinho vazio em cima, se chamava um colarinho.

Falemos primeiro, então, do colarinho: O tema era “para onde vai a direita?” e os palestrantes Vasco Pulido Valente e Adolfo Mesquita Nunes, ou seja, um catedrático jublilado da opinião e um político no activo.

Não era uma boa combinação: VPV é uma figura tutelar e singular e, como um eucalipto, tende a secar tudo em volta. AMN é um político brilhante e um bom orador ao qual se augura (e pela minha parte desejo, a bem do país) um futuro exaltante mas não tem idade (nem conhecimentos históricos que supram a ausência de vivência de alguns dos factos que relatou) para se abalançar a uma resenha original do percurso das últimas quatro décadas que trouxe o país, e o CDS, à situação em que se encontram.

Teria sido melhor VPV sozinho, e não por qualquer demérito intrínseco de AMN: um político no activo, ele ou outro qualquer, não tem a mesma liberdade de que goza VPV; nem se encontra quem possa oferecer a originalidade e agudeza de raciocínio deste último, simplesmente porque, concordando ou discordando, são únicas.

Ademais, VPV regressava ao espaço público após uma longa ausência. E só isso já teria justificado a presença de pelo menos um canal de televisão, ao menos para fingir que existe alguma vida inteligente no intervalo de reportagens sobre as últimas inanidades de que algumas não-pessoas se aliviam a propósito da crise no Sporting. Mas não: estava lá uma excelente fotógrafa, estavam na assistência Passos Coelho e Rui Ramos mas nem sequer há, que eu saiba, sequer uma gravação – a que se chama agora, creio,  podcast.

Podcastnão há, e também não havia jantarinho antes da tertúlia, ao contrário do que costuma suceder com as congéneres no Porto, onde nasceu este salutar hábito de juntar umas pessoas para ouvir gente de fora da sufocante mesmice da esquerda indígena. Ao organizador, o excelente André Abrantes Amaral, não agradeci o trabalho, que a mim e a todos os outros proporcionou a oportunidade de ouvir sem pagar nada gente que apreciamos, mas censurei o facto. Com paciência, explicou por que razão circunstancial o jantar não foi possível: coisas lá da logística do Grémio Literário, uma entidade cujo responsável fez um breve discurso de apresentação do evento com uma parte opinativa (o homem está, parece, atormentado com o ascenso da direita populista e queria aparentemente esconjurar a possibilidade de que aquela hidra hedionda mostrasse a cabeça num lugar tão respeitável) que se dispensaria.

Que disse então VPV, que o Telmo Azevedo Fernandes, que me convidou a escrever estas regras, quer saber? Não me vou lembrar de tudo porque, lá está, não tenho acesso a gravação. Mas retive várias ideias, sem preocupação de ordem ou importância:; o CDS devia estar menos preocupado em esgaravatar mais 3 ou 4% de votos ao PSD e mais em falar à nova classe média, a dos 48% de jovens portugueses qualificados que ganham sem esperança 1.000 ou pouco mais euros, e que ou são abstencionistas ou votam no Bloco, e às antigas profissões liberais que foram forçadas a evoluir para trabalhadores assalariados; Rui Rio é um líder regionalista que quer encher o país de pequenos napoleões locais, com o respectivo séquito de funcionários e esferas de poder, sem nenhuma ideia nacional que preste; o CDS é um partido pequeno porque a seguir ao 25 de Abril não existia para colonizar o Estado, como fizeram o PS, o PSD e o PCP, e portanto o poder, os lugares e as clientelas foram acaparados; o PCP de hoje não é o mesmo PCP que o PS hostilizou in illo tempore, a sua perda de poder e influência, no Alentejo e, por exemplo, em Almada, significam que o PS pode conviver com ele desde que num clima permanente de regateio – é o que a geringonça faz, regatear; e a direita tem hoje em Portugal um líder natural – que não nomeou mas se inferiu ser Passos Coelho, que estava presente.

Foram estas, a traço muito grosso, as ideias que foram afloradas. Após as apresentações poucas intervenções houve: apareceram, como aparecem sempre, os clássicos liberais verberando no essencial a ausência de pendor liberal dos dois partidos de direita; e os conservadores católicos verberando no essencial a ausência de encíclicas papais nos programas dos mesmos partidos, nomeadamente em questões como o aborto e a eutanásia. AMN despachou os primeiros com característica habilidade, no essencial salientando a ideia de já não ser nada pouco se se conseguir infiltrar alguma dose de liberalismo nas políticas públicas; e VPV aconselhou os críticos conservadores exaltados a dirigirem as suas objurgatórias à ICAR, que não é menos tíbia do que os partidos ditos de direita, e por alguma razão será, a defender as causas que os apaixonam.

Quem lá esteve reconhecerá decerto pelo menos algumas destas ideias, e poderá iluminá-las com ditos ou aspectos que me esqueceram ou escaparam. Os que as ilustram ou, pelo contrário, os que não confirmam nem o rigor da minha memória nem a justeza da minha interpretação.

Do que estou absolutamente certo é de que para todos, mesmo os que tiverem a alma pequena, valeu a pena.

4 pensamentos em “Para onde vai a direita”

  • Quanto tempo de antena vão dar ao CDS para pôr a andar um movimento moderno herdeiro dos seus princípios?
    E quantas vezes e a que horas vão debater com gente inteligente, culta e sem agenda política a bondade das novas políticas desse eventual CDS?
    A tv que forma, ou antes, adormece a opinião pública, tem pouco tempo para dedicar à vida política do país ( pois então, há o futebol, as telenovelas, os talk-show, a publicidade ) e este governo tem muito material para encher o tempo de antena. Depois há aquelas coisas a que chamam debates, onde cada político traz o monólogo preparado de casa e onde cada assunto tem direito a 5 minutos de aprofundamento. Por favor, neste circo onde quem manda já tem os lugares todos marcados há primeiro que dar umas cotoveladas para abrir espaço aos tais 48%. E, antes disso, acorda-los para que eles se interessem pelo espectáculo.

  • Manuel Ferreira. escreve:

    Se se confirmarem as ideias dos dois filósofos da Direita que lá estavam…a Direita vai mesmo para o Abismo Final = nem uma ideiazinha Nova nem um pensamento coerente de futuro NADA. só a nostalgia do passado e o lamento do presente. Claro que ouvir Vasco Pulido Valente aquece a Alma com o seu brilhantismo de sempre. Adolfo foi decepcionante desta vez. PPC ouviu com atenção e tristeza suponho eu está falta total de ideias . Mérito para Amaral pelas iniciativas.

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