Pesada herança

Eduardo Freitas

Um par de anos sobre 25 de Abril de 1974, em conversa com o meu Avô então já muito céptico com o regime sobrevindo, recordo ter-lhe tentado responder à observação de que “muito havia feito Salazar pelo País”. Qualquer coisa como: “Pudera, em 40 anos alguma coisa haveria ele de ter feito, não?”

Hoje, pensando num neto na casa dos 20 anos, descontente com o sistema político-económico em que vivemos (está a pensar emigrar), ele poderá respigar o mesmo argumento à avaliação de muitas alegadas “conquistas de Abril”. Por exemplo, que observações suscitaria ao nosso jovem este gráfico? Não permite ele sustentar que a evolução observada traduz apenas uma continuidade da tendência vinda do Estado Novo? Como evitar que também ele pergunte: “mas não tiveram 44 anos para o fazer?” Saber que mais indicadores estarão nesta situação talvez seja um tema interessante para investigação. É certo que o nosso jovem usufrui hoje da liberdade de expressão de que os seus avós foram severamente limitados e foi ao golpe militar de 1974, e subsequente carrilamento em 25 de Novembro de 1975, que a deve. Também já não tem de se preocupar com a gestão do fim do Império, mas continua, ele e nós, a aguardar pormenorizado relatório sobre o caótico abandono do antigo Ultramar.

Pensando a 20 anos de vista, é imperativo resolver a “pesada herança” deste regime: uma dívida colossal que, com vento forte pela proa, nos porá na 4ª bancarrota pós-1974, situação humilhante para o regime no confronto com a disciplina financeira do Estado Novo que possibilitou legar-nos 866 “pesadas” toneladas de ouro (de que apenas restam 343).

A dívida é uma perigosa inimiga da Liberdade. Especialmente para os netos.

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