Quando os empresários vivem bem com os impostos

Manuel Pinheiro

A preparação do Orçamento de Estado suscita, como é bom numa democracia, um debate público muito alargado sobre as melhores opções para cada sector. É assim que temos os habituais pedidos de apoio, as reformas, os professores, a cultura, enfim, uma miríade de mãos estendidas que os governos de cada momento procuram conjugar melhor ou pior conforme as eleições estiverem ou não mais perto.

Uma das afirmações mais bizarras, e porém consistentes ano após ano, é a dos empresários que vivem bem com os impostos. Ou até, numa posição que só pode ser encarada a sorrir, dos empresários que propõem o aumento de impostos sobre outros empresários.

Uma breve pesquisa na net sobre notícias publicadas nas últimas semanas permite confirmar que os cervejeiros reclamam porque o vinho paga poucos impostos, os fabricantes de bebidas açucaradas querem que se aumente os impostos sobre as bebidas com mais açúcar, a associação do sector automóvel está agradada com o Governo e com a neutralidade fiscal. Já as gasolineiras o que pedem é estabilidade fiscal. Cito, do Dinheiro Vivo, para não me enganar: “Para nós, basicamente, é a questão da previsibilidade, é a questão de não estarmos constantemente a fazer alterações ao enquadramento fiscal”.

Portanto o que principalmente preocupa as gasolineiras não é o facto de mais de metade da sua facturação serem impostos que cobram aos cidadãos, mas sim a trabalheira de terem de andar a mudar os preços todos os dias.

Bem podem os dirigentes da confederações andar a pregar o desagravamento fiscal das empresas, bem podem os teóricos da gestão andar a pedir incentivos fiscais ao investimento: a verdade, preto no branco, é que as associações empresariais parecem viver bem com os impostos que temos e, pasme-se, até se alegram se aumentarem os impostos para os outros.

A verdade é que muito do associativismo empresarial português se sente melhor ao lado do poder do que afirmando opções estratégicas, qualquer que seja o governo do momento. Quando são as empresas a tolerar ou a defender o aumento da carga fiscal, algo está mal.

E isto, num contexto em que a carga fiscal sobre os Portugueses é unanimemente considerada elevada e em que o esforço fiscal dos Portugueses é claramente dos mais elevados da UE

Face a este cenário, é irónico constatar que o PCP, numa defesa directa dos seus interesses, se opõe a que os partidos paguem IMI sobre o seu imobiliário. O PCP é um significativo proprietário de imóveis.

Afinal quem é de direita e quem é de esquerda ?

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