Salgueiro Maia não perdeu uma noite para isto

Manuel Pinheiro

Todos sonhamos com sair. Sonhamos com as coisas simples: estar numa esplanada a ver quem passa, caminhar relaxadamente, sentir a areia da praia nos pés. Tenho trabalhado todos os dias fora de casa e garanto ao leitor que sonho com isso a cada dia: não há alegria alguma em conduzir em ruas vazias ou em estar a teclar num edifício de escritórios do qual sou o único ocupante.

O confinamento foi imposto por lei mas é, na verdade, um consenso nacional. Estamos confinados para que o alastrar do covid seja mais lento e assim possa ter boa resposta por parte do sistema de saúde. Há quem discorde, é certo, mas a esmagadora maioria da população pensa assim. É bom que assim seja. É suposto que as leis traduzam a vontade do povo e não se imponham contra a vontade deste.

É neste contexto, em que todo o país se entrega ao confinamento que surge, inexplicada, a iniciativa do Parlamento em manter as celebrações formais do 25 de Abril juntando algumas centenas de pessoas no hemiciclo.

Parece-me simples concordarmos em dois pontos. Desde logo que o 25 de Abril é um evento histórico relevante, que marcou o fim do Estado Novo e os primeiros passos da democracia que se afirmaria com a constituição de 76. Deve ser comemorado, não como evento de arquivo mas para nos recordar a todos que a liberdade e a democracia precisam de ser reconquistadas todos os dias. E em segundo lugar que, obviamente, a interação social acelera o alastramento da doença e portanto, nem carece de grande justificação, o aglomerar de pessoas num espaço confinado como é a Assembleia da República contraria não só a lei mas o mais elementar bom senso.

Não há motivo nenhum para que 25 de Abril não se comemore. Haveria imensas formas de o comemorar e até de reforçar essa comemoração no contexto em que vivemos. Basta um só exemplo, a forma como o Santo Padre marcou a morte e ressurreição de Cristo, sozinho na Praça de São Pedro. Imagens que ficarão para sempre marcadas na nossa memória. Ninguém se esqueceria do 25 de Abril em que os lideres parlamentares falariam para uma bancada vazia e um país cheio, lá em casa.

Em vez disso vamos ter as comemorações de sempre, chatas, bafientas, que têm uma audiência minúscula. E este ano ainda pior, com um hemiciclo a meio gás e com gente ali toda junta e de máscara como se viu esta semana.

Evidentemente o país não entende que os deputados que nos representam se julguem no direito de fazer precisamente o oposto do que nos impõem em lei.

É do mais elementar bom senso que, havendo alguém infectado, haverá forte possibilidade de contágio.

Estas comemorações do 25 de Abril lembram a manifestação de 8 de Março em Espanha, organizada contra todas as recomendações técnicas, e que contribuiu decisivamente para a desgraça de vidas humanas naquele país e lembram as eleições francesas que, inacreditavelmente, decorreram durante a quarentena. E porém , quem organiza e defende tudo isto faz discursos pomposos de agradecimento aos médicos e louva o SNS. Farão isso certamente quando comerem croquetes após os discursos do 25 de Abril em amena cavaqueira.

Há uma profunda ironia nisto. É que o Salgueiro Maia naquela noite não foi à cama precisamente para que o povo ganhasse a liberdade, passasse a ter o poder. Em 2020 quem tem o poder manda-nos ficar em casa e organiza uma cerimónia só para si.

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