Banco de Portugal – Mudar, para que fique tudo na mesma

Manuel Pinheiro                                                                                      .

Não se entende que, estando num país em que urge fazer chegar rendimento às pessoas este seja sofregamente absorvido por este tipo de instituições.

A recente polémica sobre a nomeação do governador do Banco de Portugal resume-se a isto: esgrimem-se argumentos violentos de lado a lado, há muita poeira no ar para ficar tudo exatamente na mesma. E é esse o objetivo: que nada mude.

Esta polémica nasceu e vive na bolha político-comentadeira. Quem dirige o banco de Portugal e como é escolhido diz muito pouco à esmagadora maioria dos nossos concidadãos, preocupados que estão com as muitas dificuldades do dia a dia.

Tanto Mário Centeno como Álvaro Santos Pereira têm, genericamente, qualificações para exercer o cargo dentro da forma rotineira como vem sendo exercido. Desconto as críticas ao percurso de Mário Centeno e os elogios à independência de Álvaro Santos Pereira. Porém nenhum deles tem mandato nem irá reformar coisa alguma. O que está em causa é a mera disputa política para ver quem nomeia “o nosso rapaz”. A ironia de tudo isto é que, tanto PS como PSD argumentam que deve ser nomeado o seu, pois ele é que é o independente.

Não procuram independência alguma. Se procurassem, acordariam entre eles que a escolha do governador passaria a ser feita num concurso público transparente e que não dependesse dos ciclos políticos. O atual PM do Canadá, Mark Carney foi governador do banco de Inglaterra.

O PS até teria nele um bom argumento, por ser um político de centro esquerda, tecnicamente muito sólido. Mas nem PS nem PSD querem isto: discutem quem nomeia mas querem manter o poder de nomear um dos seus.

Afinal tantas críticas às pressões de Donald Trump sobre a Reserva Federal e nós não andamos longe disso. O processo de nomeação dos governadores dos bancos centrais, a independência destes e a independência da sua gestão é assunto de muitos trabalhos académicos. Para leitura rápida, veja este que confirma que a independência ainda é um bem escasso.

Também não procuram boa gestão. O que era normal, após a implementação do euro, era que o banco se restruturasse para novas funções, naturalmente com equipas qualificadas, mas reduzidas. Nada disso, o banco de Portugal conta com 1800 funcionários, muito mais do que instituições congéneres, para os quais precisa agora de uma sede gigantesca na qual se propõe investir 280 milhões de euros.

A construção da sede é relevante. O BdP não se assume como um servidor do país que precisa de um local de trabalho conveniente mas sim como uma grande entidade que precisa de uma sede ( obviamente enorme, imponente e no centro de Lisboa ) que afirme essa grandeza perante o povo passa lá em baixo. Tal como a CGD o fez, e mais tarde conseguiu livrar-se do edifício, um gigante que só dava despesa.

Não se iluda quanto às notícias que agora vêm sendo publicadas sobre a sede, a estrutura, e tudo o mais. Elas não provêm de investigação jornalística: foram lançadas precisamente pelos interessados na nomeação do “nosso rapaz” e desaparecerão muito em breve.

Dirão alguns que o Banco de Portugal tem lucros. Certamente, mas isso não decorre desta vasta estrutura, aliás é penalizado pela sua dimensão excessiva. A ter lucros melhor seria que estes regressassem ao Estado para que este os pudesse investir em melhor destino. Não se entende que, estando num país em que urge fazer chegar rendimento às pessoas este seja sofregamente absorvido por este tipo de instituições.

O triste episódio do Banco de Portugal é um bom exemplo de porque é que o centro político perde força. PS e PSD tem um assunto em mãos, muito discutem sobre ele mas fica tudo na mesma. Tudo na mesma não: é que as pessoas votam e cada vez menos votarão em quem deixa tudo na mesma.

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