Não esquecer: a culpa é do capitalismo

Gonçalo Nabeiro                                                                          .

Quando se cultiva nas universidades a noção de que Hitler foi um monstro (que foi), mas que Lenine foi um visionário libertador, figuras como Mamdani estarão sempre mais perto do poder.

O capitalismo está a falhar às gerações mais jovens? E será essa a causa que as leva a procurar refúgio em cavaleiros do apocalipse como Zohran Mamdani? Peter Thiel acredita que sim.

«Se se formou em 1970 sem dívidas escolares», disse Thiel ao The Free Press (7 de novembro), «compare isso com a experiência da geração millenial: muitas pessoas vão para a faculdade, não aprendem nada e acabam com dívidas incrivelmente pesadas». É uma tese interessante, até lógica, e identifica um problema real que as comunidades políticas ocidentais, em especial a norte-americana, enfrentam atualmente. Todavia, o argumento do empresário apresenta algumas lacunas. E a mais importante está na atribuição da culpa – uma característica mais ou menos transversal às críticas pós-liberais, movimento do qual Thiel é uma das cabeças mais influentes. É no parágrafo seguinte que o erro se cristaliza: «Atualmente, é extremamente difícil para os jovens comprarem uma casa. Se existirem leis de ordenamento do território extremamente rígidas e restrições à construção de mais moradias, isso é bom para os boomers, cujos imóveis continuam a valorizar, e é terrível para os millenials». «Se proletarizarmos os jovens», concluiu, «não devemos surpreender-nos que acabem por tornar-se comunistas».

Por outras palavras: Peter Thiel reconhece que os principais problemas residem na intervenção central que distorce o mecanismo de mercado – uma das formas elementares pelas quais o socialismo se manifesta –, mas culpa o capitalismo pela atração que os jovens sentem pelo socialismo/comunismo. Imagine-se que o Estado ordena a substituição dos dois pneus traseiros de um carro por duas rodas de carruagem em todos os veículos que venham a ser produzidos após a entrada em vigor da lei. Passados alguns anos, uma sondagem mostra que os jovens, frustrados com a ineficiência dos novos carros, preferem voltar a deslocar-se em carruagens. A lógica é a mesma, mas dificilmente alguém razoável seria capaz de atribuir a culpa aos carros ou a quem os fabrica. Ou seja, medidas socialistas que prendem o capitalismo levam as gerações mais jovens a abraçar o socialismo. É isto?

Mas o que gera, então, esta atração que acaba por ser, de forma praticamente inevitável, uma espécie de Síndrome de Estocolmo? Não desvalorizando a tese de Thiel, que independentemente da conclusão errada estimula uma discussão importante, o argumento apresentado por Joseph Schumpeter no seu Capitalism, Socialism and Democracy (1942) é mais completo. Independentemente de serem teses que possam acabar por se tocar ou até complementar, não são iguais. O economista austríaco, depois de explicar que a democratização do ensino (particularmente o ensino superior) deve muito ao capitalismo, argumenta que isto «pode criar um tipo de inempregabilidade particularmente desconcertante» porque quem «frequentou uma faculdade ou universidade torna-se facilmente psicologicamente inempregável em ocupações manuais, sem necessariamente adquirir empregabilidade, por exemplo, em trabalhos profissionais. O seu fracasso em fazê-lo pode ser devido à falta de habilidade natural — perfeitamente compatível com a aprovação em testes académicos — ou ao ensino inadequado; e ambos os casos ocorrerão, absoluta e relativamente, com mais frequência à medida que um número cada vez maior de pessoas é encaminhado para o ensino superior e à medida que a quantidade necessária de ensino aumenta, independentemente de quantos professores e estudiosos a natureza decidir produzir».

Este fenómeno, seguindo o raciocínio de Schumpeter, leva ao aumento do «número de intelectuais», entrando-se nesse leque cada vez maior «com um estado de espírito totalmente insatisfeito». E o «descontentamento gera ressentimento». De seguida, o autor escreve que é criado um «interesse de grupo que molda uma atitude de grupo que explica de forma muito mais realista a hostilidade à ordem capitalista do que poderia explicar a teoria segundo a qual a justa indignação do intelectual em relação aos erros do capitalismo representa simplesmente a inferência lógica de factos ultrajantes e que não é melhor que a teoria dos amantes de que os seus sentimentos não representam nada mais que a inferência lógica das virtudes da pessoa amada». «Essa hostilidade aumenta, em vez de diminuir», concluiu Schumpeter, «a cada evolução capitalista». Dificilmente alguém conseguirá explicar o problema em causa, tão premente nos dias que correm, como Joseph Schumpeter o explicou há mais de oito décadas.

O argumento de Schumpeter é particularmente importante porque é congruente com a tendência que hoje é possível observar. As gerações mais velhas iludiram as mais novas, em termos gerais, com um discurso maniqueísta: ou se frequenta a universidade, ou o sucesso nunca será um objetivo tangível. É precisamente por isto que a «inempregabilidade particularmente desconcertante», o descontentamento e o ressentimento se têm multiplicado. Dizer isto não é, de todo, duvidar das boas intenções das gerações mais velhas que veem no ensino superior uma alavanca para uma vida melhor, uma vida que muitos deles não conseguiram atingir. Também eles foram iludidos.

No final de contas, torna-se mais fácil de entender a insatisfação de um jovem que acaba de sair da faculdade sem perspetiva clara de futuro, que lida de forma constante com a rejeição de empresas às quais concorre e que, quando consegue ser aceite, observa o fosso salarial entre a sua suposta mão de obra qualificada e a mão de obra pouco qualificada. E a universidade, que cada vez mais funciona como instituição amplificadora do esquerdismo coletivista, leva-os a crer que a culpa é do capitalismo. Mas não é. O problema é cultural – através das falsas ilusões transmitidas pelas gerações mais velhas – e educacional, através da doutrinação a que os jovens são submetidos em muitas instituições de ensino superior.

Assim, parece seguro afirmar que o problema reside mais em aspetos culturais e em padrões de ensino, do que propriamente no capitalismo per se. Porque quando se cultiva – criando raízes resistentes à evidência empírica, à lógica e ao bom senso – nas universidades a noção de que Hitler foi um monstro (que foi), mas que Lenine foi um visionário libertador; de que o Ocidente é o responsável por todas as desgraças do terceiro mundo – mesmo depois dos ventos de mudança do século XX que resultaram nos diversos movimentos de autodeterminação e independência –, mas que os ditadores que usurparam o poder, torturando e aniquilando qualquer oposição e condenando os seus povos à miséria, são apenas freedom fighters com pequenas falhas, figuras como Mamdani estarão sempre mais perto do poder.

Mas, claro, a culpa é do capitalismo. O que nos vale, se é que isso serve de consolo, é que o capitalismo, com toda a elevação dos níveis de vida que proporcionou à espécie humana, tem as costas largas.

 

Artigo publicado pelo Observador em 2025/11/21, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.

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