O Apagão: um silêncio que não se entende

Manuel Pinheiro                                                                          .

Pergunta-se: que preparativos se fizeram em hospitais e serviços essenciais para futuros eventos deste tipo?

As notícias correm com tanta velocidade que já ninguém fala disso. Foi em abril, estava bom tempo e, ao fim da manhã, o país viu-se sem energia elétrica. Ao bom espírito português, fizeram-se churrascos e a coisa que, felizmente durou poucas horas, foi levada com boa disposição. Os políticos entretiveram-se a discutir a que horas foi enviado o sms da proteção civil e se a rede de distribuição devia ser pública ou privada ou outra mediocridade qualquer.

E, porém, foi grave. Grave no curto prazo porque teve custos muito elevados em pessoas e empresas e, não esquecer, custou cinco vidas em Espanha. Grave pelo que revelou, e que ninguém no espaço público debatia, a nossa dependência face a Espanha, sobretudo a uma Espanha que, sôfrega por ascender ao palco dos “amigos do ambiente”, se colocou em excessiva dependência das renováveis que, nesse dia, falharam, acarretando a paragem de toda a distribuição ibérica. Grave porque revelou que o país carecia de meios para substituir o abastecimento que não vinha de Espanha. E grave ainda porque revelou que muitas entidades essenciais, como hospitais, estavam completamente impreparadas para tal evento. O episódio do ministro que, à noite, informava que enviou o motorista entregar gasolina só testemunha o patético nível de impreparação.

Em Espanha abriu-se um aceso debate político sobre as causas e a política energética. Mas, isso é questão da vida deles, são quase cinquenta milhões, gerem o país deles como entenderem.

O que me parece ensurdecedor é o silêncio que se fez por cá após o assunto.

Pergunta-se: que preparativos se fizeram em hospitais e serviços essenciais para futuros eventos deste tipo? Fazem-se testes anuais para garantir que tudo está operacional? Alguém audita? Silêncio.

Pergunta-se: que alterações estratégicas fez o país na sua capacidade de produção para poder reagir em caso de novo corte? Nada…

Pergunta-se: que esforços diplomáticos se fizeram com Espanha porque descobrimos afinal que a capacidade produtiva do país vizinho é do nosso interesse estratégico? mais silêncio.

Pergunta-se ainda: dado que a península ibérica funciona quase como uma “ilha” no mercado de energia, foi estudada alguma ligação a Marrocos que nos pudesse diversificar as compras? ainda silêncio.

E alguém avaliou o encerramento da central elétrica do Pego, anunciada com grandes parangonas ambientalistas em 2021?

Ainda não percebi se este assunto não está a ser tratado por ninguém, que é o mais provável, ou se é aquele tipo de assuntos que os gabinetes governamentais acham demasiado complexos para o povo entender e, portanto, não falam deles. Parece-me evidente que deveria ser publicado um relatório técnico com os vários aspectos deste problema, recomendações para futuro, e debatido no Parlamento.

Note o leitor que acho natural e muito bem que as nossas empresas comprem a energia a Espanha se este país a fornece normalmente a melhor preço no mercado ibérico. A questão é outra: é que a independência energética não está ao mesmo nível da independência no abastecimento de papel higiénico de três folhas. A independência energética, ou pelo menos a capacidade para suprir temporariamente falhas de terceiros faz parte da nossa característica de país supostamente independente.

Se é este o nosso nível de preparação para um corte de energia, e já sabemos qual é o nosso nível de preparação para operar elétricos com turistas no centro de Lisboa, queira Deus que não se repita o tremor de terra naquela cidade.

 

Artigo publicado pelo Observador em 2025/11/28, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.

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