Mani Basharzad .
Os iranianos estão, mais uma vez, a resistir ao que Scruton chamou “a tirania dos mulás do mal”.
Há novamente protestos no Irão. Mas desta vez, algo é diferente. Nas revoltas de 2019, 2022 e 2023, o slogan dominante era negativo: aquilo que os iranianos não queriam. “Morte ao ditador” ecoava pelas ruas. Hoje, o país foi além da rejeição. Agora há afirmação. Um nome é entoado: o Príncipe Herdeiro Reza Pahlavi.
Mais de dez cidades iranianas levantaram-se nos últimos dias, desde os sectores mais conservadores da sociedade até às universidades de elite. Pelas cidades iranianas ouvem-se slogans: “Pahlavi vai voltar”, “Javid Shah”, o equivalente persa de “Viva o Rei” e simplesmente “Rei Reza Pahlavi”. Pela primeira vez desde a revolução, os iranianos não estão apenas a denunciar um regime; estão a articular uma alternativa.
O que significa a renovada popularidade do nome Pahlavi? Algum contexto é útil. No ano passado, o Príncipe Herdeiro, filho do último Xá do Irão, visitou o Reino Unido, onde se encontrou com Boris Johnson, David Cameron e Nigel Farage. Em 2023, viajou para Israel e reuniu-se com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Isto representa uma mudança notável para um país cuja ideologia dominante assenta na destruição de Israel e que deu à rua onde se situa a embaixada britânica o nome de Bobby Sands, o militante do IRA que morreu numa prisão da Irlanda do Norte nos anos 80.
A mensagem que os iranianos estão a enviar é desarmantemente simples: queremos voltar à normalidade. Querem o fim da loucura imposta por uma ditadura islâmica que isolou o Irão do mundo e de si próprio. Normalidade significa relações pacíficas no exterior e paz cívica no interior. Significa um Irão que não se define através de uma revolução permanente.
A República Islâmica definiu-se, desde a sua fundação, contra o Ocidente, desde a ocupação da embaixada dos EUA em 1979 até à prisão rotineira de cidadãos britânicos apenas por serem britânicos. Isto não é um excesso acidental; é desenho ideológico.
A máquina de propaganda do regime insiste em reduzir a agitação actual à economia. A inflação, é verdade, devastou o Irão. Há quarenta e cinco anos, um dólar americano valia sete tomans. Hoje ultrapassa os 145.000 e pode variar até 25% num só dia. Uma desvalorização como a crise da libra de 1992 é apenas um dia normal na economia iraniana.
Mas esta explicação colapsa quando analisada de perto. Os protestos não tiveram origem nas universidades nem entre estudantes radicais, mas no bazar, o segmento mais conservador da sociedade iraniana. Lojistas, comerciantes, pequenos empresários. Quando o bazar grita “Deus salve o Rei”, isto não é um protesto económico. É profundamente político. Quando os estratos mais conservadores da sociedade exigem mudança de regime, a legitimidade do regime colapsou e não pode ser reparada com política económica.
Para perceber como o Irão chegou aqui, é preciso recordar o que se perdeu. As imagens do Irão pré-revolucionário, cosmopolita, confiante, reconhecivelmente ocidental, parecem hoje quase irreais. Como é que um país passou desse mundo para um que inspirou A História de uma Serva?
A resposta está no que o falecido Xá descreveu como “a aliança ímpia entre islamistas e a esquerda”. Nos anos que antecederam a revolução de 1979, estas duas forças convergiram no ódio à modernidade liberal. Entre os seus mais influentes apoiantes ocidentais esteve o historiador e filósofo francês Michel Foucault, que viajou para o Irão e saudou famosamente a Revolução Islâmica como uma fonte de esperança num mundo sem esperança.
Mas pode perguntar-se ao cientista social mais citado da história, o senhor Foucault: o carácter religioso do movimento não o incomodou? Aparentemente, não. Foucault descartou essas preocupações citando Marx: a religião, argumentou, era “o espírito de um mundo sem espírito”. O Islão era, para ele, apenas um veículo de resistência anti-imperialista. Foucault visitou o Irão com o seu namorado antes da revolução. Não pôde regressar depois de a revolução que apoiou ter vencido, por razões que deveriam ser óbvias. Tal como os “Gays pela Palestina” não podem ir para a Palestina.
Enquanto os intelectuais pós-modernos falharam de forma espectacular em compreender o que estava a acontecer, um escritor percebeu. Ele também escrevia para o The Spectator: Sir Roger Scruton. No seu ensaio de 1984 para o Times, “In Memory of Iran”, Scruton começa com uma pergunta que ainda assombra quem a lê: “Quem se lembra do Irão?” Ele pergunta o que aconteceu aos activistas, jornalistas e intelectuais que exigiram a queda do Xá e o que esqueceram: as conquistas do Xá:
Os seus sucessos no combate ao analfabetismo, ao atraso e à impotência, a sua política económica esclarecida, as reformas que poderiam ter salvo o seu povo da tirania dos mulás do mal, se lhe tivesse sido dada a oportunidade de as concretizar.
Hoje, os iranianos estão novamente a resistir ao que Scruton chamou “a tirania dos mulás do mal”. Mas desta vez, a diferença é decisiva. Os iranianos sabem o que querem, e querem a monarquia de volta.
Pela primeira vez, sinto esperança. Não por causa das narrativas dos media ocidentais, mas porque os próprios iranianos estão finalmente desiludidos com reformas dentro de um sistema concebido para resistir à reforma. Estão a dizer abertamente aquilo que antes era impensável. Não querem um Deng Xiaoping iraniano. Querem um Charles de Gaulle.
Será este o desfecho? Como pessimista, especialmente depois de ver todas as esperanças que morreram nos protestos de 2019, 2022 e 2023, surpreendo-me com a minha esperança desta vez. Uma coisa me dá esperança: figuras como Netanyahu em Israel e Trump na Casa Branca, que, tal como os próprios iranianos, estão desiludidos com os chamados reformistas. Como escreveu Shakespeare: “Doenças desesperadas, quando crescem, por remédios desesperados são curadas, ou não são de todo.” A República Islâmica é uma doença desesperada. Não pode ser reformada; como Henry Kissinger compreendeu muito bem, “um moderado iraniano é aquele a quem acabaram as munições.”
Artigo publicado pelo Observador em 2026/01/13, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.
