José Meireles Graça .
Não deve ser preciso explicar a Trump que num mundo em que os inimigos dos EUA não acabaram convém não alienar os amigos.
Em 11 de Novembro de 2016 dizia eu o seguinte, no blogue Gremlin Literário, a propósito da eleição de Trump:
Mas creio que este programa [o para os primeiros cem dias], mesmo que fique, como ficam todos, muito aquém do que promete, vai geralmente na direcção correcta, para uma nação que se defronta com os problemas que a América tem. E é decerto um alívio não descortinar nenhum lip service às causas fracturantes, às preocupações com o aquecimento global, ao igualitarismo à outrance e todas as outras manias com que se entretém a malta das bandeiras desfraldadas ao vento das manifestações. Vai ser, então, um bom mandato? Acho que sim.
Foi um bom mandato. Não houve a III guerra mundial, nem se começaram novas guerras, nem se instaurou uma ditadura, nem se verificaram todas as outras previsões ominosas que os intelectuais de esquerda, lá, cá e em toda a parte, disseram ser praticamente um adquirido.
Trump perdeu as presidenciais seguintes. Mas como o sistema eleitoral americano é, em muitos Estados, pouco fiável, e o ego de Trump, ainda maior que o Alasca, não podia conceber ter perdido, seguiu-se uma batalha judicial. Trump não concedeu, ser um loser não lhe cabia na cabeça e a boa educação não era, nem é, a sua qualidade mais saliente.
Essa batalha judicial relativamente discreta Trump perdeu. Mas a outra, a tenaz, vistosa e duradoura que o establishment democrata lhe moveu, viria a ganhar – nunca foi condenado pela suposta invasão, a seu mando, do Capitólio.
Um clássico: A esquerda preocupa-se com os pobres, os deserdados, a igualdade e a nebulosa da justiça social; e a direita com os ricos, os empregados e a justiça social do crescimento económico. Sendo portanto uma moralmente superior à outra, uns pontapés judiciosos na legalidade e na liberdade de expressão quando os eleitorados calham de, enganando-se, escolher um fascista, são mais do que justificados. Temos isso debaixo dos olhos, por exemplo, no Brasil, onde Bolsonaro foi condenado a uma pena demencial por um imaginário golpe de Estado.
O homem é inacreditavelmente teimoso e, longe de se retirar para os negócios e o golfe, nunca deixou de combater, ganhando a nomeação e a eleição para um segundo mandato – uma remontada épica.
Escarmentado pelos cuidados contranatura (a sua) do primeiro mandato, e talvez espicaçado pela noção de que a idade (tem 79 anos) não lhe dá muito tempo para deixar o que deseja ser uma marca indelével na história americana, começou cedo a dizer ao que vinha. Trumpistas confessos como eu não levaram tudo a sério porque quem comunica decisões políticas através do Twitter, mistura relações pessoais com entre Estados, se exprime num inglês primário semeado de hipérboles, e matraqueia incessantemente os ouvintes e leitores com afirmações ziguezagueantes e contraditórias, requer que se olhe para o que faz e não para o que diz. Mas, por outro lado, a intenção de dinamitar o Estado regulamentar e intrusivo, o restauro do desacreditado espírito nacionalista, e a denúncia da deriva burocrática e anti-liberdade de expressão da EU e de vários países europeus, falavam ao coração de gente desencantada com os caminhos do que se chama a construção europeia – um edifício pós-moderno, feio, caro e assente em alicerces mais do que duvidosos.
O que tem feito, porém, na parte que interessa aos países europeus, dá pano para as mangas da preocupação porque vem ferir talvez de morte um consenso mundial que existia desde o fim da II Guerra Mundial, materializado na NATO e na convicção (mais veemente por aqui do que lá) de que o Ocidente somos nós (os EUA, a Europa, a Austrália e a Nova Zelândia, o Canadá e a América do Sul); e os outros os restantes, que não partilham a nossa tradição cultural, afinada ao longo de séculos.
Percebe-se que a NATO perdeu em 1991 o inimigo comum e deixou de ter sentido os EUA suportarem uma parte maior do seu custo, pelo que a exigência, aliás entretanto meio diluída, de mobilizar 5% do PIB de cada país filiado, fazia sentido. Trump, com característica rudeza, veio dizer o que já presidentes anteriores tinham insinuado e nas chancelarias europeias instalou-se a consternação: como diabo é que vamos convencer o eleitorado a aceitar isto – gastar mais com a tropa é gastar menos com outras coisas.
Sobre a Ucrânia pior ainda. Os EUA não levam a Rússia a sério como inimigo, isso ficou lá atrás com a implosão da URSS. De modo que quando Trump disse a Zelensky, num encontro público célebre, que “you don’t have the cards right now”, o que estava a sugerir, e tem vindo a confirmar, é que o problema da Ucrânia é para o resto da Europa resolver, não os EUA. Já agora com armamento americano, de preferência, que nas guerras não é necessário perderem todos.
Nas chancelarias acima referidas é como quem diz. Que se há coisa para que as instituições europeias dão jeito é para empurrar para lá batatas quentes. De tal modo que é mais do que certo que os eleitorados recalcitrantes (como o nosso, que acha, com razão, que o que se passa na Ucrânia é coisa da Europa de Leste e dos países europeus ricos, que nós por cá até o senhor Doutor Salazar nos poupou àquela maçada da II Guerra) vão ver se a UE contrai uns empréstimos para ajudar os países pobres e ficamos com umas Forças Armadas reluzentes sem custos. Isto enquanto países como a Polónia e os três países bálticos não estão à espera da União nem de coisa nenhuma – armam-se porque eles é que sentem as barbas de molho.
A operação de captura de Maduro foi não apenas compreensível para eliminar um espinho inimigo (chinês, cubano, iraniano, russo) plantado no quintal de trás americano, como teve ainda o prémio especial do manancial de petróleo e, de brinde, a alegria da população oprimida por um regime socialista bárbaro.
Navegamos até aqui no mar da lógica e do compreensível, sendo o compreensível que Trump, com brutalidade e descaso, nos lembra que apenas é eleito por Americanos e é dos interesses destes, como os vê, que cuida.
Chegamos porém à Gronelândia. E aqui o senso fica escaqueirado porque naquela ilha não há nada, absolutamente nada, que os Americanos não possam aproveitar para a Defesa, nem recursos que não possam explorar, nem acordos que não possam fazer com a Dinamarca (para além do já amplíssimo de 1951), nem com as populações locais, cujo total caberia aliás num bairro de qualquer grande cidade americana. E que se ponha sequer a hipótese de conquistar o que está sob administração de um aliado é o mesmo que dizer que a NATO, afinal, não existe, o que existe é o delírio imperial de um César laranja que está a querer dar um passo maior do que a perna. Eh lá, Gibraltinos, ponham-se a pau que o vosso enclavezinho lá recursos naturais não tem, salvo o marisco (que aliás tratam mal, como não tratam ali ao lado em La Linea), mas tem um grande interesse estratégico.
Trump vem, caracteristicamente, ameaçar com tarifas os países que já deram sinais de não ver a anexação com bons olhos. A ameaça das tarifas já foi mais convincente porque a hecatombe económica que por causa delas se anunciou não se materializou nem cá nem lá, e há bons motivos para, desta vez e em razão do que está em causa, não se ceder nem um milímetro, e isso sem grandes declarações nem gestos empolgados.
Trump, sendo muitas coisas, não é burro e sabe avaliar o jogo que tem na mão. Não deve ser preciso explicar-lhe que num mundo em que os inimigos dos EUA não acabaram convém não alienar os amigos. Trump sobe a parada, a ver se intimida parceiros? Bem visto, mas tem na mão apenas um poker. Como se sabe, não é o jogo mais alto.
Sucede que anteontem houve discurso em Davos, uma interminável arenga de mais de uma hora.
O que pensaram os espectadores não imagino, eu fiquei espantado. Num resumo sumário: O que se passa na política interna dos EUA deve interessar o resto do mundo; todos os dirigentes mundiais devem olhar com admiração para Trump, a mesma que lhe dedicam todos os Americanos, excepto alguns idiotas; o país hospedeiro, a Suíça, só existe porque os EUA permitem, e o mesmo acontece com todos os outros pequenos países, que aliás sempre exploraram os EUA. Huge, beautiful, historical, this very important speech, não disse o próprio mas poderia ter dito.
Soube-se entretanto que já há um esboço de acordo entre os EUA, a Dinamarca e a Gronelândia, e que nele os EUA conseguem tudo o que precisam para que a Gronelândia seja um baluarte contra potenciais ameaças. Ou seja, o que poderia ter sido obtido por negociação será apresentado como uma vitória e a NATO segue serena enquanto o eleitor do Delaware ou de Maryland se felicita por este grande triunfo. Tudo fica bem quando acaba bem e vamos todos beber uma coca-cola a acompanhar um hambúrguer.
Artigo publicado pelo Observador em 2026/01/23, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.
