Alejandro A. Chafuen .
Nunca esquecerei o meu encontro com María Corina Machado, em Lima, Peru, em 2014. Ao aterrar nessa cidade para um evento da Fundação Internacional para a Liberdade, soube que o governo venezuelano (que já a vinha perseguindo) lhe tinha retirado a imunidade parlamentar e que, se regressasse à sua terra natal, não poderia voltar a sair. María Corina regressou à Venezuela e tive de esperar mais de 11 anos para a abraçar e felicitar pessoalmente de novo. Foi em Oslo quando compareceu para receber o Prémio Nobel da Paz de 2025. María Corina chegou com um dia de atraso devido à difícil operação da viagem e aos pormenores, dignos de um filme, para iludir os controlos das forças de segurança e de inteligência do agora detido Nicolás Maduro. Muitos aspetos da sua dramática saída da Venezuela já são públicos. Para além do desafio psicológico de empreender uma viagem tão perigosa, sofreu também fisicamente e permaneceu na Europa para receber tratamento médico.
María Corina e a sua equipa são bem conhecidos no Acton Institute. Em 2018, foi a oradora principal da Acton University, um programa de vários dias que atrai amigos da liberdade e da fé. Estiveram presentes cerca de mil pessoas de oitenta países diferentes, representantes de mais de duas dezenas de tradições religiosas. Devido à perseguição governamental, o discurso foi feito online, seguido de uma conversa com o Padre Robert Sirico, cofundador do Acton. O Padre Sirico acompanhara de perto os esforços dos lutadores pela liberdade na Venezuela, incluindo intercâmbios anuais com a hierarquia católica venezuelana. Ao longo de todos estes anos de ditadura e de roubo de eleições, a Igreja venezuelana manteve o seu estatuto como a instituição mais respeitada do país.
A primeira visita do Padre Sirico à Venezuela ocorreu a 18 de Fevereiro de 1993 para proferir uma conferência sobre Doutrina Social Católica no seminário São José de El Hatillo. Também deu palestras na Universidade Metropolitana, no IESA e na sede da CEDICE Libertad, o think tank pró-liberdade venezuelano.
O caminho de María Corina até ao Prémio Nobel da Paz começou no início do século XXI, quando liderava a Súmate, uma organização de educação cívica. Conheci-a pela primeira vez através de Rocío Guijarro, a diretora executiva de longa data da CEDICE. Muito antes de María Corina captar a atenção internacional, já caminhava discretamente pelas ruas de Caracas, onde a sua mãe, Corina, cuidava de crianças abandonadas através da Fundação Atenea.
Depois entrou na política. O seu trabalho foi constante, coerente e contínuo. Embora não fale frequentemente de religião, durante os comícios María Corina costuma usar um ou mais rosários e uma cruz simples. Os seus apoiantes oferecem-lhe frequentemente rosários, que ela coleciona e guarda no seu gabinete. Os seus rosários não são uma declaração de moda, mas uma expressão da sua verdadeira identidade. No seu recente encontro com o Santo Padre, deixou também vislumbrar o último rosário recebido, como um pequeno tesouro acabado de lhe ser confiado. Brilhava com uma sobriedade serena, em harmonia com a elegância austera do seu impecável vestido preto. Seguindo o costume de muitos fiéis, María Corina levou consigo uma coleção de rosários e medalhas para serem benzidos pelo Santo Padre e depois oferecidos aos seus amigos na fé.
As suas amigas recordam que, em criança, assistia à missa dominical na igreja dedicada a Nossa Senhora de Coromoto, Padroeira da Venezuela. Coromoto foi um líder indígena masculino. Pode parecer irrelevante, mas não conheço nenhuma outra Virgem nomeada em honra de um homem. O seu gabinete também possui múltiplas imagens, estátuas e entalhes da Virgem Maria.
O Instituto Acton, do qual faço parte desde a sua fundação em 1990, continuou a ajudar os aliados de María Corina a construir apoio intelectual e moral para a libertação e recuperação da Venezuela. Em 2019, embora o Acton estivesse determinado a implementar um programa de formação na Venezuela, as preocupações de segurança levaram a que fosse transferido para o Panamá. Vários membros da equipa de María Corina participaram nesse evento. Um deles, Pedro Urruchurtu, foi e é o seu principal assessor em política e alianças. Pedro continuou a servir como intermediário prudente e fiel entre o Acton e María Corina. Participou na Acton University por duas vezes, juntamente com outros aliados venezuelanos, alguns ainda na Venezuela, pelo que não os mencionarei.
Quando a ditadura emitiu um mandado de detenção contra Pedro e vários outros membros da equipa de María Corina, foi outro líder do mundo dos think tanks e aliado do Acton que acorreu em sua ajuda: Pablo Viana, então um jovem congressista do Uruguai que é também cidadão argentino e fundador da FREE (Fundación Rioplatense de Estudios), um recente think tank com bons aliados no governo argentino. A rápida acção do seu grupo e do governo permitiu que Pedro e a restante equipa de María Corina recebessem proteção na embaixada argentina em Caracas. Não é aqui o lugar para descrever as dificuldades que enfrentaram durante os 412 dias que ali passaram. A sua retirada, graças à Operação Guacamaya, foi tão cinematográfica quanto a de María Corina. (Ainda assim, a dela foi uma viagem muito mais longa e exigiu mais ajuda nos bastidores por parte dos Estados Unidos e de outros governos.)
Vários aliados de María Corina assistiram às cerimónias do Prémio Nobel da Paz de 2025, representando diferentes grupos e correntes ideológicas. No início da sua carreira política, María Corina parecia uma conservadora talentosa mas típica membro da elite venezuelana. Contudo, a sua dedicação constante e a sua verdadeira proximidade às classes populares, caminhando por quase todos os bairros de Caracas e do país, assim como o seu esforço para alargar o diálogo com outras forças permitiram-lhe, por fim, conquistar o apoio da maioria dos venezuelanos.
Houve momentos em que María Corina e a sua equipa se sentiram muito sós. A 5 de janeiro de 2019, Juan Guaidó foi eleito presidente da Assembleia Nacional da Venezuela. A oposição considerou ilegítimas as eleições presidenciais de maio de 2018, declarou que o poder tinha sido usurpado e afirmou a existência de uma vacatura presidencial, tal como permite a Constituição venezuelana. Guaidó tomou posse como presidente interino numa assembleia popular aberta em Caracas a 23 de janeiro de 2019. Mais de 50 países (incluindo os Estados Unidos, a maior parte da América Latina e a Europa) reconheceram-no como presidente. Os Estados Unidos assumiram a liderança, prestando apoio total a Guaidó e aos seus aliados mais próximos. Apesar do fracasso de Guaidó em obter o apoio da maioria das forças conservadoras e liberais da Venezuela, algo que perdura até hoje, pouco ou nenhum desse apoio chegou a outras forças pró-liberdade como a liderada por María Corina. É comum em muitas burocracias, como a do Departamento de Estado, concentrar todos os esforços na estratégia preferida e negligenciar outros aliados. Problemas de vistos impediram Guaidó de assistir aos eventos de Oslo, mas outros membros da oposição no exílio, como Leopoldo López e Antonio Ledezma, puderam estar presentes. Alguns, como Henrique Capriles, não foram convidados, por serem vistos como instrumentais para o regime dos usurpadores.
Sem o apoio dos Estados Unidos e sem acesso aos fundos apreendidos ao regime venezuelano, María Corina e a sua equipa aceitaram ajuda e colaboração modestas de organizações de diversas ideologias, sobretudo em temas sociais caros a certas agendas globalistas. María Corina moderou a sua posição nesses temas, o que lhe valeu críticas de setores mais conservadores.
Vários conservadores estiveram presentes nos eventos organizados em torno da cerimónia principal do Prémio Nobel da Paz. Os mais conhecidos, pelo menos para mim, foram membros da Fundação Disenso, associada ao Vox, o partido político conservador de Espanha. Na noite anterior à entrega do prémio, exibiram o filme María Corina Machado: A Conquista da Liberdade, que em breve estará legendado em inglês. Em apenas uma semana, tornou-se o segundo vídeo mais visto produzido pela sua fundação. Quase todos os que assistiram a essa estreia acabaram a chorar, incluindo eu próprio.
O último evento da cerimónia do Nobel a que assisti, organizado pelo Oslo Freedom Forum com o apoio da Reynolds Foundation, chamou-se “O Nobel é Nosso”. Thor Halvorssen, líder do programa, disse-me com a sua habitual paixão e energia: “Este é o primeiro Prémio Nobel da Paz ganho por alguém alinhado com o liberalismo clássico”. María Corina passa agora, pelo menos por algum tempo, a disputar com Javier Milei o pódio da notoriedade na América Latina. Agora que, após a detenção de Nicolás Maduro, se aproxima o momento em que María Corina poderá aceder ao governo do seu país, estou certo de que os conservadores disputarão com os liberais “progressistas” da Europa e do resto do mundo a aproximação às suas agendas e ideias.
No campo da economia, que conheço melhor, María Corina apresentou programas económicos sólidos, alinhados com o liberalismo clássico. Em geopolítica, não tenho dúvidas de que se associará mais ao lado conservador do espectro político norte-americano. Machado não mencionou Trump nos seus discursos na Noruega, mas voltou a agradecer ao Presidente Donald Trump após a captura de Maduro. Durante as suas entrevistas na Noruega, deixou entender o seu apoio à operação militar ou quase militar para derrubar o tirano usurpador na Venezuela.
A odisseia da viagem de María Corina a Oslo e a incerteza sobre como e quando o governo dos Estados Unidos ajudará a acelerar a transição para restabelecer um governo legítimo na Venezuela captam, pelo menos por agora, mais atenção do que o impacto que o Prémio Nobel da Paz terá na promoção das ideias de María Corina nas Américas. Mas aqueles de nós que gostamos e admiramos María Corina têm o dever de lhe apresentar os nossos pensamentos e de lhe dar, a ela e à sua eventual equipa, o espaço e as ferramentas necessárias para escolher as melhores ideias e políticas para resgatar a Venezuela dos horrores de um regime criminoso que ainda hoje, embora mais encurralado, subsiste no país.
O seu Prémio Nobel da Paz não marca o fim de uma luta, mas o amanhecer de um renascimento: uma Venezuela onde as famílias possam reunir-se, onde as eleições sejam honestas, onde a fé guie a vida pública rumo à dignidade humana e ao desenvolvimento humano integral.
Para além do seu merecido prémio, a recente visita de María Corina Machado ao Sumo Pontífice é outro fator de esperança. Após a visita, sublinhou: “Hoje tive a bênção e a honra de poder partilhar com Sua Santidade e expressar-lhe o nosso agradecimento pelo acompanhamento do que se passa no nosso país. Transmiti-lhe também a força do povo venezuelano, que se mantém firme e em oração pela liberdade da Venezuela, e pedi-lhe que intercedesse por todos os venezuelanos que permanecem sequestrados e desaparecidos.” Durante a sua visita ao Vaticano, María Corina destacou a luta espiritual que os venezuelanos enfrentaram durante anos e assegurou que, finalmente, com o acompanhamento da Igreja e a pressão sem precedentes do Governo dos Estados Unidos, está mais próxima a derrota do mal no país.
Antes da operação de captura de Maduro ser bem-sucedida, a opinião na Casa Branca e no Departamento da Guerra era de que poderia ser arriscado e contraproducente envolver María Corina Machado, a verdadeira artífice da vitória eleitoral de 28 de julho de 2024, quer nos planos dessa intervenção quer no início do processo de transição. Para além dos riscos de fugas de informação, um regresso rápido de María Corina Machado colocaria a sua vida em perigo ou exigiria uma operação militar de maior envergadura por parte dos Estados Unidos, com inúmeras mortes.
Entretanto chegou o momento da reunião com Trump. Após esta sua visita ao Presidente americano, María Corina Machado organizou uma recepção para os simpatizantes do seu movimento na região de Washington, D.C., à qual tive o privilégio de comparecer. No seu discurso informal aos seus maiores aliados, incluindo membros do Congresso e da sociedade civil, mais uma vez agradeceu ao Presidente Trump e à sua administração. Mas dedicou mais tempo a descrever e enfatizar os milagres que a ajudaram na sua jornada de liberdade, especialmente a possibilidade de ter escapado aos controles da ditadura para sair da Venezuela, navegar na escuridão sem GPS, chegar a Oslo com a sua família e encontrar-se connosco. Falou dos milagres não de forma metafórica, mas como uma real companhia e intervenção de Deus.
Nada será fácil, mas esperemos que os objetivos de uma transição para mais liberdade, tornados possíveis pela força e pelo poder demonstrados por Trump e pelos Estados Unidos, sejam reforçados e consolidados, encontrando pontos de convergência com María Corina Machado.
O legado de María Corina Machado é maior do que a política. Ela junta-se a outros líderes de consciência que demonstram que a coragem moral pode derrotar o medo. Mas a sua luta ainda não terminou.
E é precisamente por isso que este momento tanto importa. A Venezuela e o mundo precisam de testemunhas como ela.
Artigo publicado pelo Observador em 2026/01/30, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.
