Ricardo Dias de Sousa .
A cidade de Nova Iorque, esse bastião simbólico do Capitalismo e do Ocidente, tem um Presidente da Câmara comunista e anti-ocidental. Em relação ao Capitalismo, já o referi várias vezes, é simplesmente uma palavra empregue por Marx para tentar pôr em pé de igualdade a realidade que observava e a utopia que idealizava. Nova Iorque, sendo uma das, senão a, cidade mais rica do mundo encaixa à perfeição no papel de Besta do Capitalismo. Os ataques às Torres Gémeas em 2001 também demonstraram inequivocamente que a cidade tem um lugar preferente na mitologia anti-ocidental. Assim, não deixa de ser irónico que Nova Iorque tenha, desde o passado dia 4 de Novembro, um Mayor eleito que abomina o tanto o Capitalismo como o Ocidente.
Aparentemente Nova Iorque não quer ser o que é. O facto é, em si, insólito, mas não surpreendente. Citando o árbitro Vítor Correia, desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me surpreende. A eleição de um candidato com estas ideias oriundo do Partido Democrático, numa cidade que vota massivamente nesse partido não é exactamente uma surpresa. O mesmo se poderia dizer da pressa nas secções internacionais da imprensa ocidental em apresentar Mamdani (assim se chama o senhor) como mais uma derrota eleitoral de Trump. Também não surpreende ninguém que a esquerda radical, a esquerda institucional e a direita boçal um pouco por todo lado se venham auto-congratular pelo resultado eleitoral. O que talvez surpreenda um pouco, é o facto de os eleitores democratas da Cidade de Nova Iorque, que são quase todos, tenham ido colocar o seu voto de forma maioritária (ainda que não consensual) num senhor que basicamente advoga pela abolição da sua forma de vida.
Só para o registo, achar que a eleição de Mamdani é uma derrota de Trump só se pode explicar por uma reacção pavloviana que a figura do Homem Laranja provoca em grande parte da imprensa e classe política. Na eleição presidencial de há dois anos Trump obteve cerca de 300 mil votos contra os quase dois milhões de Kamala Harris. Nesta eleição municipal, em que houve mais do triplo de gente a votar só nas primárias do Partido Democrático que em Trump, metade dos eleitores republicanos ficou em casa. Votar era um exercício fútil já que a vitória ia ser com toda a certeza de um democrata. Com uma campanha polarizada e motivada, e dois milhões de votos cativos (os dois candidatos democratas obtiveram entre eles sensivelmente o mesmo número de votos que Kamala Harris nas presidenciais) a dúvida estava em se o eleito ia ser o candidato oficial do partido ou o derrotado nas primárias, que apresentou posteriormente uma candidatura independente. Este último, Andrew Cuomo, foi uma das muitas figuras que Trump culpou pela sua derrota em 2020. A tal derrota de Trump é, afinal, a queda de um dos seus inimigos confessos.
Na realidade isto é pouco importante para perceber o fenómeno Mamdani. Muito mais importante é saber que os eleitores democratas acabaram por ter que escolher entre ele e Cuomo, um político que, para além de falsificar relatórios médicos no COVID-19, foi acusado por várias mulheres de assédio sexual em 2021 enquanto exercia o cargo de Governador do Estado de Nova Iorque, cargo de que se viu forçado a demitir. Também pendem sobre ele várias suspeitas de corrupção e casos em que alguns dos seus colaboradores próximos foram condenados pela prática. Num episódio mais rocambolesco, Cuomo foi obrigado por um tribunal a entregar cinco milhões de dólares que tinha recebido pela venda de um livro de sua autoria que, afinal, tinha sido escrito, editado e promovido por empregados e com meios da administração pública.
Não é, pois, de estranhar que um candidato limpo de escândalos tenha sido preferido a outro com uma longa carreira eticamente reprovável, senão mesmo criminal. O facto de a corrida ter sido renhida, tanto nas primárias como na eleição propriamente dita é um indício que dentro do Partido Democrata ainda há muita gente incomodada com a apresentação de um candidato comunista. A rendição da esquerda progressista aos valores comunistas e anti-ocidentais ainda não é total. Isto não exclui os democratas de responsabilidades. Havia muitos outros candidatos nas primárias e a maioria dos eleitores do partido em Nova Iorque (um pouco mais de um milhão votou) preferiu um candidato com estas ideias. Se nas primárias Mamdani conseguiu 56,4% do voto militante, na eleição este apenas se reduziu para 54,7% das preferências entre democratas em geral. Convenhamos que, com um em cada dois eleitores a participar logo nas primárias, a rejeição do candidato oficial era, à partida, improvável. Mas isto não significa que a dedução de que a escolha de Mamdani é muito divisória para o Partido Democrata esteja essencialmente errada.
Eu não conheço o tal Zohran Mamdani. A eleição do Mayor de Nova Iorque não está no topo das minhas prioridades pelo que até há bem poucos dias desconhecia a sua existência. Sei que vem de uma família privilegiada da Gauche Caviar, como tantos outros líderes comunistas no passado. Mas, para além do estereótipo de representante da classe operária oriundo do ultraprivilegiado Upper East Side de Manhattan, não tenho nenhum motivo para duvidar das boas intenções do personagem. Pelo contrário, muitos dos mais ilustres e/ou sanguinários líderes comunistas partilhavam essa particularidade, assim, vou assumir que quando propõe a confiscação da propriedade privada, nomeadamente no que diz respeito à habitação, a utilização de fundos públicos para a construção de casas novas, a implementação de transportes públicos, creches e mesmo mercadorias grátis, Mamdani vai tentar conseguir que estas promessas sejam reais, e que não se trata de um cínico exercício de marketing político.
O que Mamdani, como tantos outros comunistas antes dele recusam admitir, é que as sociedades civilizadas não funcionam assim. Para que fique claro, a principal diferença entre a cidade de Nova Iorque e uma aldeia primitiva remota no coração da selva africana é a incomensuravelmente maior divisão do trabalho e do conhecimento que ocorre na primeira. Não são os recursos naturais, destes até há mais na aldeia, não existem nem agricultura nem minérios no Bronx. Também não é o número de pessoas. Os quase 9 milhões de habitantes estão em Nova Iorque porque a cidade produz riqueza suficiente para os manter e não o inverso. No dia em que isso não aconteça as pessoas abandonarão a cidade na medida das suas possibilidades. É a divisão do trabalho e do conhecimento o que permite que 9 milhões de pessoas tenham um nível de vida muito superior ao de umas dezenas de indivíduos nos confins de uma selva tropical. A ilusão comunista é que isto pode subsistir sem uma economia de mercado. Acreditam que o Estado pode, através de decretos impostos pelo monopólio da violência, manter este nível de prosperidade.
Curiosamente os comunistas na URSS começaram a perceber esse problema logo no início da Revolução. A única forma de manter o sistema comunista em funcionamento foi através da violência. Os milhões de mortos como forma de sobrevivência de um regime de planificação central que nunca funcionou. A tese pode ser reduzida à seguinte fórmula: sem preços de mercado, nomeadamente preços de mercado dos bens de capital, uma sociedade avançada é incapaz de decidir que produzir, como produzir e onde, pelo que a decisão, por muitas camadas de tinta científica que se lhe tente aplicar, passa a ser uma opinião de uma nomenklatura bastante imunizada das consequências dessas decisões. Contraintuitivamente, o que os preços de mercado permitem é que essas decisões se possam tomar de forma descentralizada e por agentes que sofrem as consequências das más decisões. Os soviéticos levaram a planificação centralizada a um limite extraordinário. Quem leia o processo de decisão e de produção soviético fica maravilhado com a capacidade de organizar estruturas que tentaram superar a impossibilidade de substituir os preços de mercado. Ao contrário de muito intelectual no Ocidente, que engolia acriticamente a propaganda, os comunistas eram conscientes desta limitação. Houve um tempo, durante a década de 50 em que, entre a melhoria de vida da generalidade da população livre das ameaças imediatas da guerra e da fome, munida de estatísticas de produção e crescimento económico falsificadas para agradar às chefias e investindo em grandes projectos industriais que tentavam copiar o que de melhor se fazia no Ocidente, os líderes soviéticos chegaram a acreditar que, para a década de 80 a URSS ia ultrapassar os Estados Unidos como primeira potência económica (os Jogos Olímpicos de Moscovo iam ser o certame onde a URSS ia demonstrar isso ao mundo). No entanto, essa ilusão de grandeza terminou abruptamente quando, logo na década de 60, a realidade revelou que todo esse aparelho de planificação comunista que supostamente ia acabar com a escassez material no país era afinal uma acumulação de ineficiência productiva e corrupção que destruía valor. Por essa altura, em vez de demolir o edifício de planificação económica, este foi capturado por Brejnev e pela sua Máfia de Dnipropetrovsk. O crime organizado tomou conta do país. Como aliás também sucede em Cuba ou na Venezuela, países que Mamdani acredita sofrerem por causa das políticas norte-americanas.
Isto é, em linhas gerais, o que inevitavelmente sucederá em Nova Iorque. A ilusão manter-se-á enquanto o Mayor Mamdani conseguir desviar recursos productivos para os seus projectos. Mas a incapacidade destes em reproduzir riqueza (porque estão em grande parte imunizados da exposição aos preços de mercado) acabará por se impor. Em linhas mais gerais, isto é o que sucede em todo o Ocidente. Há 25 anos o carro mais vendido na Europa era o Volkswagen Golf, agora é o Dácia Sandero. À medida que o Socialismo avança, a prosperidade vai discretamente diminuindo. Mamdani é só mais um degrau num guião já conhecido. A pretensão de que uma sociedade avançada se pode manter empregando métodos de organização política tribais, onde o chefe vela pelo bem-estar da tribo e governa sem restrições, é a grande ilusão do Comunismo. Que isto se possa implementar sem qualquer consequência para a imensa ordem descentralizada de divisão do trabalho e do conhecimento é uma quimera própria de gerações de privilegiados que nunca tiveram que se preocupar com a escassez. O Comunismo é um luxo a que os pobres não podem aceder.
Artigo publicado pelo Observador em 2025/11/14, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.
