Roger Scruton .
O texto que se segue foi escrito por Sir Roger Scruton há mais de quarenta anos, num momento em que grande parte do Ocidente ainda romantizava a revolução iraniana e fechava os olhos às suas consequências. Lê-lo hoje é um exercício de humildade intelectual: poucas vezes a lucidez de um pensador resistiu tão bem ao teste do tempo.
Scruton não escreveu para agradar ao seu tempo, mas para o contrariar. Contra a maré do conformismo moral e da ingenuidade ideológica, percebeu cedo que a queda do Xá não significava libertação, mas a abertura das portas ao terror religioso, à violência sistemática e à destruição de uma civilização antiga. Onde muitos viram “emancipação”, ele viu fanatismo; onde muitos viram “progresso”, ele viu regressão; onde muitos celebraram, ele avisou.
Quatro décadas depois, com o Irão novamente mergulhado em convulsão, repressão e morte, este texto impõe-se como uma prova rara de presciência intelectual. Scruton compreendeu que a política não se julga por slogans, mas pelas vidas concretas que destrói ou protege. E tinha claro não só que o romantismo revolucionário no Ocidente costuma ter como preço o sangue dos outros, como também que certas verdades são impopulares quando são ditas, mas inevitáveis quando os factos se impõem.
Ler este artigo hoje não é apenas revisitar o passado, é compreender melhor o presente. E é também prestar homenagem a um pensador que teve a coragem de dizer o que quase ninguém queria ouvir e que, tragicamente, tinha razão.
A Oficina da Liberdade, em contacto directo com a viúva do autor, Lady Sophie Scruton, obteve não só autorização formal para a republicação deste ensaio como também o seu entusiástico apoio à ideia de o colocar em Português à disposição dos leitores da nossa coluna, assim como especial satisfação por ver este texto tão injustamente esquecido durante décadas ganhar nova vida junto de leitores portugueses. Recorde-se ainda que o ensaio pode ser lido na colectânea Against the Tide – The Best of Roger Scruton’s Columns, Commentaries and Criticism, editada por Mark Dooley (Bloomsbury, 2022), onde se reúne uma parte essencial da obra jornalística e ensaística de Sir Roger Scruton.
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Em Memória do Irão
(The Times, 1984)
Quem se lembra do Irão? Isto é, quem se lembra da vergonhosa avalanche de jornalistas e intelectuais ocidentais para a causa da revolução iraniana? Quem se lembra da campanha histérica de propaganda travada contra o Xá, dos relatos sensacionalistas da imprensa sobre corrupção, opressão policial, decadência palaciana, crise constitucional? Quem se lembra dos milhares de estudantes iranianos nas universidades ocidentais a absorver entusiasticamente as modas marxistas, servidas por radicais de poltrona, para um dia liderarem a campanha de motim e mediocridade que precedeu a queda do Xá?
Quem se lembra do comportamento desses estudantes que fizeram reféns os enviados da mesma potência que lhes tinha dado a sua “educação”? Quem se lembra da acusação de Edward Kennedy de que o Xá presidira a “um dos regimes mais opressivos da história” e roubara “dezenas de milhares de milhões de dólares ao Irão”?
E quem se lembra da verdade que os nossos jornalistas nos deixaram ocasionalmente entrever, sobre as reais realizações do Xá: os seus êxitos no combate ao analfabetismo, ao atraso e à impotência do seu país, a sua política económica esclarecida, as reformas que poderiam ter salvo o seu povo da tirania dos mulás perversos, se lhe tivesse sido dada a oportunidade de as concretizar? Quem se lembra da liberdade e da segurança em que os jornalistas podiam percorrer o Irão, recolhendo boatos que alimentariam as suas histórias fantasiosas de um reinado de terror?
É verdade que o Xá era um autocrata. Mas autocracia e tirania não são a mesma coisa. Um autocrata pode presidir, como o Xá procurou presidir, a um parlamento representativo, a um poder judicial independente, até a uma imprensa livre e a uma universidade autónoma. O Xá, tal como Kemal Atatürk, cuja visão partilhava, via a sua autocracia como o meio para criar e proteger essas instituições. Porque é que nenhum dos cientistas políticos ocidentais se deu ao trabalho de o sublinhar, ou de recordar a teoria que nos diz que devemos estimar não apenas o processo democrático, mas também as instituições representativas e limitadoras que podem florescer mesmo na sua ausência? Porque é que ninguém nos exortou a comparar o sistema político do Irão com o do Iraque ou da Síria?
Porque é que os nossos cientistas políticos se apressaram a abraçar a revolução iraniana, apesar das provas de que uma revolução nestas circunstâncias só pode ser o prelúdio de uma desordem social maciça e de um regime de terror? Porque é que a intelligentsia ocidental continuou a repetir o mito de que o Xá era o culpado desta revolução, quando tanto Khomeini como os marxistas a vinham a preparar há 30 anos e tinham encontrado, apesar das muitas tentativas de a pôr em marcha, apenas um apoio popular espasmódico?
A resposta a todas essas perguntas é simples. O Xá era um aliado do Ocidente, cujo feito de estabelecer uma monarquia limitada numa região estratégica vital ajudara a garantir a nossa segurança, a trazer estabilidade ao Médio Oriente e a travar a expansão soviética. O Xá cometeu o erro fatal de supor que os formadores da opinião ocidental o amariam por criar condições que garantiam a sua liberdade. Pelo contrário, odiaram-no. O Xá não contou com o grande desejo de morte que assombra a nossa civilização e que leva os seus membros mais vociferantes a propagar qualquer falsidade, por mais absurda que seja, desde que prejudique as nossas hipóteses de sobrevivência.
É claro que durante algum tempo, esses elementos vociferantes permanecerão em silêncio sobre o tema embaraçoso do Irão, acreditando que o colapso das instituições iranianas, o estabelecimento do terror religioso, a expansão soviética para o Afeganistão e o fim da estabilidade na região se devem todos a outra causa qualquer que não a revolução iraniana.
Aqueles que deram o seu apoio a esta tragédia limitaram-se a virar-lhe as costas e a ir para outro lado, preparar um desfecho semelhante para os povos da Turquia, Nicarágua, El Salvador, Chile, África do Sul – ou onde quer que mais os nossos interesses vitais possam ser prejudicados.
É claro que hoje é difícil para um correspondente ocidental entrar no Irão, e, se o fizesse, não seria divertido. Não poderia, como os monstros necrófagos que enviavam as suas reportagens de Beirute, adoptar a pose pública de herói da linha da frente. Teria de testemunhar, em silêncio e com terror pela própria vida, coisas que desafiam a descrição: a “justiça” espontânea dos guardas revolucionários, as cenas pavorosas de violência, tortura e frenesi demoníaco, a humilhação pública das mulheres, o sacrifício diário de vidas demasiado jovens para terem consciência do significado pelo qual são condenadas à destruição.
Teria também de enfrentar a verdade que há anos evita confrontar e que ainda poderia reconhecer se o hábito de confessar os próprios erros tivesse sido preservado: a verdade de que a monarquia limitada é a forma de governo certa para o Irão, que só pode ser salvo pela restauração do legítimo sucessor do Xá. Mas um tal resultado estaria nos interesses não apenas do povo iraniano, mas também do Ocidente. Por isso, poucos jornalistas ocidentais estarão dispostos sequer a considerá-lo.
Artigo publicado pelo Observador em 2026/01/16, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.
