José Meireles Graça .
André Ventura ganhou o debate: Mais ágil no raciocínio, mais eficaz no contra-ataque, mais contundente na forma, mais descontraído na maneira de estar, e portador de esperança na mudança das coisas para melhor contra um adversário que garante que, por ele, ficará tudo como tiver de ser.
Mas André Ventura perdeu o debate: A lentidão no raciocínio também pode ser interpretada como cuidado na reflexão; a eficácia no contra-ataque também pode ser interpretada como repentismo inconsequente; a descontracção só é melhor que o nervosismo se uma quiser dizer segurança e o outro inferioridade. Nesta o eleitor não acreditava antes do debate e continuou a não acreditar depois, além de saber que, para efeitos de progresso ou retrocesso, o Presidente conta pouco, mas o Governo muito.
Todavia, foi de governo, cujos actores não estavam ali, que se falou quase o tempo todo – os jornalistas interpretam-se como participantes do jogo político corriqueiro, completos com simpatias e antipatias, e por conseguinte falam da guerrilha partidária em torno da Saúde, Habitação, Justiça, Segurança, Imigração e pouco mais.
Sobre tudo isto Seguro disse defender coisas muito boas que toda a gente defende e quando, a contragosto, foi forçado a esclarecer o que devia ser feito em concreto, refugiou-se nas piedades que são o vade-mecum do PS clássico. Pelo menos em dois pontos ambos concordaram: A Saúde está num frangalho, em despedindo a ministra fica logo tudo um pouco melhor; e a economia deve ser muito mais ágil, razão pela qual só se deve mexer na legislação do trabalho desde que ela fique na mesma. Os jornalistas (porquê apenas três quando podiam ser 30, se é para demasia o melhor é fazer as coisas em grande) não menearam a cabeça aprovadoramente, mas percebe-se que ali há um consenso que dá gosto.
Ventura foi claro: Por ele fia tudo fino, é despedimentos de incompetentes, corruptos, treteiros e oportunistas, prisão para criminosos, baixa de impostos para ajudar a economia e aumentos obrigatórios de salários para evitar o recurso a emigrantes, reforço dos poderes das magistraturas e das polícias, diminuição do número de deputados (ai é verdade, isso não porque entretanto já tem um número razoável deles e espera ter mais), alterações ao Código Penal e um longo etc. muito aplaudido nas minhas bolhas e em Mosteiros, concelho de Arronches.
No que for necessário altera-se a Constituição, desde logo para reforçar os poderes do Presidente, que se os eleitores não têm discernimento para escolher os partidos cujos programas permitam encarreirar o País, o Presidente, com um murro na mesa, ensina-lhes as regras do bom viver.
De algumas coisas os eleitores gostarão. Por exemplo, há lá coisa mais justa do que a inversão total do ónus da prova em casos de enriquecimento ilícito? “Eles”, o “sistema”, os “gatunos”, são, como é geralmente sabido, uma corja de corruptos. E a eficácia retroactiva das leis (a aplicar como no caso da pensão de Vara) também pode ir para a gaveta das obsolescências. Claro que as diminuições de direitos e garantias para combater o crime afectarão fatalmente inocentes – por isso é que o Direito Penal evoluiu. E a sugestão de substituir a nomeação do PGR por eleição pelos colegas do aquário, enfim… Mas não vamos pôr-nos aqui com peguilhices, a populaça quer sangue para purgar o corpo doente e Ventura quer ser sangrador.
Ou talvez não. Que, a julgar pelas sondagens, a esmagadora maioria dos eleitores prefere adormecer com Seguro que acordar estremunhado com Ventura. Ou então rosnam para os seus botões que Belém talvez não seja o melhor trampolim para um alpinista esfomeado.
Lá que vai continuar a escalar vai, mas não este monte. E para o outro ainda leva na mochila alguns apetrechos que vão causar surpresa: habituamo-nos a ver à volta do líder uns áulicos que o acompanham no berreiro e que oferecem para o mar das ideias e da luta política espuma; e no grupo parlamentar o que se vê são pedras silenciosas ou, se falarem, pedregulhos agrestes. Mas o Chega está a crescer e já há por lá gente que, sendo vinho de outra pipa, não é de carrascão.
O que, a prazo, fará com que Ventura arredonde os cantos e, em muito, dê o dito por não dito. Por exemplo, a prisão perpétua bem pode ser só para quem tenha mais de 80 anos.
Tem prática de cambalhotas. “Eles” têm.
Mas para já, Ventura, tem paciência, não vais à Presidência. Também canto.
Artigo publicado pelo Observador em 2026/02/01, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.
