Ricardo Dias de Sousa .
Muitos recordarão o jogo de futebol da Champions League entre o PSG e um clube turco com um nome impronunciável que foi interrompido porque o árbitro teria feito um comentário racista. Se a minha memória não me trai, o que sucedeu foi que um jogador do banco turco teve um comportamento passível de expulsão e o quarto árbitro chama o árbitro principal para lhe mostrar o cartão vermelho. Quando o árbitro pergunta ao colega qual foi o jogador, este responde: “o negro”.
Na altura fiz o seguinte comentário:
“Por algum motivo que ninguém conhece, aquando das migrações eslavas há cerca de 1500 anos, numa região, que nem era exactamente parte do Império Romano, não deixou de se falar o latim vulgar. Com o passar do tempo esse latim foi derivando em vários dialectos enquanto ao redor se desenvolviam essencialmente línguas eslavas. O mais curioso foi o facto de, apesar de os vizinhos lhes darem vários nomes consoante as tribos (valáquios, moldavos, etc.), os locais chamavam e consideravam-se a si próprios romanos. E foi assim que, contra todos os prognósticos, surgiu um enclave românico no meio de um oceano linguístico eslavo. Uma língua mais próxima da que se fala na longínqua cidade de Paris, que em Sófia, Kiev, Praga, Belgrado ou Varsóvia.
E foi por isso que um senhor nascido nos Camarões, na África Equatorial, num país colonizado por França, conseguiu perceber que um senhor dos Cárpatos era racista, porque percebeu a palavra “negru” enquanto os vizinhos deste, mais ou menos racistas, teriam dito “chernyy”, “czarny”, “cerná”, “cheren”, “crna”, “crn” ou qualquer coisa do género e o maior ou menor grau de racismo de tais indivíduos ficaria para sempre oculto na ininteligibilidade do idioma. Mas, de repente, ouve-se a palavra “negru” e, como que por milagre, todas as diferenças culturais, de pensamento, de identidade, de temperamento que distam de Paris a Bucareste se esfumam, como se a capital da Roménia ficasse em Neully-sur-Seine e não muito para lá de Munique, Praga ou Budapeste.”
Como depois foi óbvio para quase toda a gente, tudo o que aconteceu foi que um senhor estava a ser acusado de defender uma ideologia, outrora muito progressista e até científica, mas felizmente caída em desgraça, simplesmente por ser mal-interpretado. A consequência a longo prazo foi que a UEFA decidiu pôr em marcha um protocolo para evitar algo que não tinha sucedido. Mas, menos mediático, foi o facto de ter reconhecido a importância dessas diferenças. O árbitro em questão foi obviamente ilibado da acusação, mas foi obrigado a fazer um curso de “reeducação” para evitar novos mal-entendidos. Duvido que o nome do curso seja esse, mas a ideia tem esse cheiro maoísta, ensinar pessoas que não cometeram nenhum crime a pensar bem.
Infelizmente estes cursos são cada vez mais necessários, porque as organizações querem evitar problemas legais. Conheço um caso: uma empresa espanhola adquiriu uma empresa do mesmo sector no Reino Unido. Mandou uma equipa de directores e gestores para dirigir a subsidiária britânica e os processos de assédio sexual começaram a chover. Teriam os espanhóis, os maus das fitas do período clássico de Hollywood, começado a vingar afrontas passadas? A repor os abusos infligidos por Errol Flynn à sua Armada Invencível? A dedicar-se à pilhagem e à violação em terras da Velha Albion? Aparentemente não. Estes senhores comportavam-se da mesma forma que tinham feito durante anos em Madrid sem que a capital espanhola tenha alguma vez sucumbido ao Estupro de Nanquim. O problema foram essencialmente piropos. Observações mais ou menos galantes que, no Reino Unido, dão direito a uma denúncia criminal. Quando as indemnizações começaram a fazer mossa na conta de resultados, e antes que a má-fama o começasse a fazer na reputação, a empresa percebeu que era mais barato e eficaz fazer os seus directores passar por cursos de reeducação que continuar a suportar a sangria.
Desde que a Inglaterra aderiu à Reforma, porque o seu mui católico rei queria um sucessor varão (sem saber que, afinal, bastava que o herdeiro escolhesse o pronome adequado), o Puritanismo passou a ser uma força a ter em conta naquele país. Para alguns puritanos, a Inglaterra protestante não o era em dose suficiente, pelo que se meteram em barcos e foram construir o seu paraíso na terra do outro lado do Atlântico. Deste modo, as duas principais nações com descendência anglo-saxónica sempre estiveram bem-dotadas de um puritanismo exigente do ponto de vista do comportamento exterior dos próprios e de terceiros, ao mesmo tempo que os governantes tiveram que ir navegando uma tolerância que permitisse que as várias seitas ou denominações não se matassem entre si. Isto enquanto mandavam alegremente bruxas à fogueira e católicos ao patíbulo. Para não me desviar muito, apenas acrescento que nem tudo é mau nesta exigência de perfeição. Webber descreve admiravelmente a forma como o Puritanismo criou as condições para a prosperidade moderna no seu A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo que, com as insuficiências próprias para descrever um fenómeno tão complexo, continua a ser uma das melhores simplificações que se pode encontrar por aí. Mas o fenómeno woke também é um subproducto desse Puritanismo, uma versão laica dessa cultura que nunca deixou de permear os anglo-saxões, mesmo quando há décadas que a maioria abandonou o Cristianismo.
Vem isto a propósito, como é fácil adivinhar, do sucedido na semana passada no Estádio da Luz. Clubismos à parte, que também fazem parte, mas são irrelevantes para as ideias da Oficina da Liberdade, o que estamos prestes a testemunhar em Portugal é ao primeiro caso mediático de exportação da Cultura de Cancelamento ao nosso país, algo que, talvez por culpa desse mesmo clubismo, ninguém parece estar interessado em analisar. A Cultura de Cancelamento é um instrumento similar aos que os inimigos da liberdade individual sempre utilizaram para exercer o seu poder sobre a massa colectivizada, pelo que é importante que estejamos de sobreaviso, porque me parece que ninguém está preparado para o que aí vem. Se isto tivesse sucedido em qualquer outro país, passada a fase do sensacionalismo, a atenção que se lhe teria dado seria practicamente nula. Ou alguém em Portugal sabia, afinal, o que tinha sucedido ao árbitro romeno?
A Cultura de Cancelamento é um fenómeno essencialmente anglo-saxão e, quanto muito, facilmente assimilável por outras culturas de matriz protestante como a Alemanha, partes da Suíça, a Holanda e os Países Escandinavos. Para a cultura dos católicos e ortodoxos é sumamente forânea e pouco interessante. Mas os ingleses são a principal potência futebolística, os seus clubes são os mais prósperos e a sua liga a mais seguida no mundo inteiro. Não é despiciendo pensar que em grande parte isto se deva à extrema vigilância exercida sobre o comportamento de todos os agentes, comportamento esse que tem que ser imaculado em todos os momentos. Não é esse um dos segredos do sucesso empresarial noutros sectores? Como afirmei anteriormente esta Ética é em grande parte responsável pela prosperidade em geral das sociedades que a assimilam, pelo que é natural que as instâncias máximas do futebol a queiram adoptar, mesmo quando esta seja um corpo estranho à maior parte do planeta. Em geral, as empresas globais adoptam práticas semelhantes, adaptadas da cultura corporativa norte-americana, como no caso espanhol acima referido. No entanto, se isto fosse assim tão simples, há muito tempo que o mundo tinha abandonado outras práticas para aderir às britânicas. A cultura é algo demasiado complexo para que se possa importar pela força comportamentos estranhos e o resultado é invariavelmente desastroso e violento. Quando as nações africanas ganharam a sua independência não foram poucos os que vaticinaram um crescimento económico irrestrito porque viam nestas nações os novos Estados Unidos, povos não contaminados pelo Feudalismo do Velho Continente que, ou bem que poderiam construir o verdadeiro Socialismo livres de uma classe burguesa opressora, ou bem integrar todas as vantagens do Capitalismo moderno podendo escrever leis e construir instituições state-of-the-art, desenhadas como as melhores que o mundo tinha para oferecer. Ambos ignoraram tanto o facto de nestes países existirem, de facto, culturas que ajustariam esses modelos à sua realidade cultural, como que nos EUA também havia uma cultura trazida pelos puritanos que não desapareceu quando o Mayflower entrou na baía de Massachusetts.
O que desapareceu em grande parte foi o Cristianismo que sustentava esta forma de entender o mundo. Aquilo a que se chama wokismo é apenas outra forma de tentar impôr uma ética pela força, de querer impôr um comportamento exterior às pessoas. Como na Florença de Savonarola ou na Genebra de Calvino, onde bandos de fanáticos percorriam as ruas a denunciar como as pessoas se vestiam para acabar com a sodomia ou a libertinagem, os novos fanáticos procuram nas palavras desprovidas de contexto a cura contra o racismo. No entanto, desde o princípio que a Doutrina cristã reconheceu que a Salvação era um assunto individual. Obviamente que as leis são necessárias, mas a Salvação não se encontra no cumprimento da Lei. Houve quem, dentro das igrejas, pensasse diferente e tentasse impôr um pensamento pela força. Obviamente que quem o fazia tinha a certeza de que era pelo bem da sociedade, mas ao mesmo tempo implicitamente acreditava que a Salvação era um fenómeno colectivo. Esta é uma tentação profundamente anti-cristã que fez com que a salvação colectiva nunca tenha encontrado um pouso permanente, mesmo quando os seus objetivos fossem louváveis. Apesar das adversidades, o Ocidente conseguiu cultivar uma realidade cultural onde o indivíduo é reconhecido como um ser autónomo responsável pela sua própria Salvação. O wokismo, como o marxismo, carece de um São Paulo que lhe possa travar essa deriva colectivista e é por isso que a Cultura de Cancelamento é tão perigosa.
O salvador colectivista trabalha para um bem maior, pelo que as regras que regem a consciência individual e a justiça ordinária não se aplicam. O acusado não é inocente até prova em contrário e não tem o direito a defender-se. Tudo o que possa ser usado como indício contra ele vai ser usado e tudo o que possa favorecer a sua defesa será ignorado. No caso específico do Prestianni, ele é um cobarde por ter tapado a boca mesmo quando isso seja prática comum, porque com isso nos impediu de testemunhar o supostamente odioso crime. Já que Mbappe, por erro ou intencionalmente, tenha declarado publicamente que ouviu 5 vezes o que não pode ter ouvido é irrelevante, não vá alguém pensar que Vini Jr. também pode ter ouvido o que não foi dito. Mas a estratégia da Cultura de Cancelamento não se reduz a isto. O acusado tem que ser “desplataformado”, isto é, não pode encontrar um canal para se defender nem alguém que o ajude nessa defesa. Por isso José Mourinho está a ser completamente trucidado em Inglaterra. Por fazer o mesmo que fez Arbeloa, recusar-se a condenar o seu jogador. O mesmo vai suceder com o Benfica. É indiferente que actualmente joguem no Benfica dezenas de jogadores negros, todos felizes de estar no clube. É indiferente que o Benfica possa muito bem ser o primeiro clube europeu a ter nas suas fileiras jogadores negros – nada mais nada menos que dois – Fortunato Levy de Cabo Verde logo em 1905, e Marcolino Bragança de Angola, em 1906 na segunda equipa e em 1908 na Primeira – muitas décadas antes de qualquer clube inglês ter ousado contratar um jogador negro. Fortunato Levy foi inclusivamente escolhido com capitão de equipa pelos seus companheiros em 1906. E que dizer da Federação Portuguesa de Futebol, que está prudentemente calada? Se fizer um âmago de defesa da elementar justiça vai ser indiferente que o primeiro negro chamado à Selecção Nacional tenha sido Guilherme Espírito Santo em 1937, quando as teorias da supremacia racial estavam no seu auge na Europa. O primeiro negro que jogou na selecção inglesa foi Viv Anderson, mais de 40 anos depois. Nenhum destes “créditos” vai valer nada contra a campanha de cancelamento se alguma entidade der uma plataforma a Prestianni. Aliás, o the Athletic já deu o mote dizendo que não é porque o ídolo dos benfiquistas seja negro que o Benfica está livre de racismo no seu interior, como se Eusébio tivesse caído de paraquedas no clube porque era um jogador extraordinário. Como se um ano antes o Benfica não tivesse sido Campeão Europeu com dois negros, Coluna e Santana na equipa que jogou a final, como se o capitão de equipa de Eusébio (e da Selecção Nacional no mundial de 1966) não tivesse sido durante vários anos Mário Coluna.
Aqui é onde a cultura de que falei no início tem um papel. Obviamente que os exemplos anteriores não significam que o racismo não exista em Portugal, mas demonstra que o problema nunca se manifestou como em Inglaterra, pelo que a forma como se tenta resolver alí é inútil para Portugal. Em Inglaterra os sempre vigilantes puritanos elevaram ofensas a um negro a um crime provado de racismo. Quem o faz é racista ponto final parágrafo. Em Portugal quem o faz não o é necessariamente, quanto muito seria culpado de utilizar uma linguagem impregnada do racismo (estrutural na terminologia woke) da sociedade (capitalista para os wokes). Ou seja, seria algo de uma tremenda falta de educação, que exigiria um pedido de desculpas e uma promessa de que não voltaria a acontece e nada mais. A questão da linguagem (impregnada de racismo ou não) é muito relevante. Um inglês, mesmo que numa discussão muito acalorada em público nunca usaria um insulto racista porque, nas últimas décadas, essas palavras converteram-se em tabus. E uma das características dos tabus é que as pessoas se auto-inibem de os transgredir. Ao contrário do que os coletivistas da virtude pregam, esses tabus não são o resultado de uma legislação opressora sobre a sociedade que proibiu o uso dessa linguagem, mas de uma persuasão que as levou a aceitar livremente essa inibição. Só a partir do momento em que essa inibição foi aceite por grande parte da população é que os coletivistas começaram a impor pela força a obrigação de acatar a regra. Em Portugal ainda não chegámos a esse ponto. Muito foi feito quando se compara com o que eram os campos de futebol nos anos 90. E não digamos em Espanha, onde a imprensa agita a bandeira da dignidade (o público, como aqui, divide a opinião por clubismo) mas onde nos anos 90 os jogadores negros eram geralmente mimados por estádios inteiros a vociferar “negro, cabrón, recoge el algodón” algo que eu nunca vi acontecer em Portugal. Mas mesmo em Espanha é difícil acreditar que se tratava de racismo porque os insultos se dedicavam exclusivamente aos jogadores das equipas contrárias. Lá como cá era mais um insulto racista que um coração racista, era mais um problema de falta de educação que de crença no que se estava a dizer.
O que nos leva à defesa possível do Prestianni (presumivelmente porque tem direito a essa presunção), quando insultado repetidamente pelo Vinicius Jr. procura um insulto que o possa ferir, sabe que é errado e por isso tapa a boca, mas uma coisa é ser errado, outra é ser tabú. Se fosse tabú o Prestianni nunca o teria dito por auto-inibição, mas a única coisa que o inibe é dizê-lo em público por uma questão de educação, assim que faz o que todos os futebolistas fazem nestes casos, tapar a boca para que a conversa seja privada. Para um tribunal interessado em fazer justiça isto deveria bastar. O caso saldava-se com arrependimento, uma sanção ligeira e um curso de reeducação. Para a Cultura de Cancelamento não. É preciso que a punição ao jogador e a todos os que o apoiem seja exemplar.
A certeza de estar a praticar um bem absoluto que exige punições exemplares tem uma consequência perversa adicional: não se contenta com impedir que ao acusado lhe seja negado o direito a defender-se, arroga-se o direito de suspender as suas próprias crenças para conseguir a condenação. Por exemplo, eu imagino que existe muita gente que não estará de acordo com a minha tese principal: que as diferenças culturais são muito relevantes para poder ser justo na apreciação de casos como este, que envolvem a existência de uma ofensa. Mas se alguém está de acordo com isto são os wokistas, afinal de contas estamos a falar de pessoas incapazes de fazer uma censura a regimes como o dos aiatolás que penduram homossexuais de guindastes pelo pescoço. Têm sempre uma explicação na ponta da língua para práticas como a excisão feminina, condenáveis sim, mas justificadas por uma cultura que importa perceber antes de censurar. Onde é que ficam esses argumentos no caso Prestianni? Mais especificamente, algo que escapa à maioria dos comentaristas, na Argentina o insulto “mono”, presumivelmente proferido pelo rapaz, não se refere exclusivamente a negros, aliás não há negros suficientes para que tal conceito se generalisasse. Os “monos” na Argentina são todos aqueles descendentes dos povos pré-colombianos ou mestiços e só a partir daí se estendeu às pessoas de origem africana. Qualquer não-europeu é um “mono” na Argentina e o Prestianni, apesar do apelido italiano, não aparenta ser um espécime de raça pura. Na linguagem wokista seria um indivíduo alienado que utiliza a linguagem opressora como própria e perpétua essas alienação e opressão assumindo uma identidade que não possui. Isto para não dizer que é oriundo de Ciudadela, um subúrbio pobre de Buenos Aires onde a maior parte dos moradores nascem condenados à exclusão e à miséria. Onde é que ficam esses argumentos neste caso?
Antes referi Savonarola e Calvino como exemplos de como as boas intenções descarrilam facilmente em fanatismo e perseguição. Mas omiti outra caracteristica importante nas suas motivações: ambos se insurgiram contra a aristocracia das respectivas cidades porque estas não eram suficientemente virtuosas quando comparadas com o povo. O povo exigia dos seus líderes mais virtude. No caso actual a situação inverte-se: são as elites quem exige ao povo que seja mais virtuoso, que esteja livre de pecado, ao mesmo tempo que define qual é o pecado e que pena aplicar. Desta inversão de papéis resulta uma sociedade dual, onde à plebe não pode sinalizar o mesmo nível de virtude pelo que, merece ser tratada como cidadãos de segunda categoria cujos direitos devem ser restringidos. Que ninguém duvide que no Reino Unido, não coincidentemente o país de origem desta orquestração da Cultura de Cancelamento no futebol, seja aquele onde o governo se dedica há mais de um ano em suspender eleições locais nos círculos onde tudo indica que o Reform UK vai ganhar. Mas, que diachos! O Governo trabalhista está totalmente a favor da Democracia, mas não podemos deixar esta corja de racistas votar.
Artigo publicado pelo Observador em 2026/02/27, integrado na coluna semanal da Oficina da Liberdade.
